domingo, 29 de março de 2015

As ilusões da direita no Brasil


Uma ilusão muito importante é a de que tudo vai muito bem pelo mundo, só no Brasil ou na América do Sul dominada pelas esquerdas é que não.




Por Flávio Aguiar, no sítio Carta Maior
As ilusões da direita no Brasil se dividem em dois grupos: o daquelas que ela quer vender para a população em geral, e o daquelas que ela mantém por si mesma, e para si. 

Dentre as primeiras – aquelas à venda – destaca-se a de uma frase atribuída ao senador Aécio Neves: “para resolver o problema da corrupção no Brasil basta tirar o PT do governo”, ou algo parecido. Simplória, simplista, não li desmentido: ficou o não dito pelo dito. Vai na esteira da superstição martelada pela mídia de que a corrupção foi fundada pelo PT, alimentada por comportamentos no Judiciário de juízes como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. 

Mas há outras no mercado. Outra muito importante é a de que nas aparências tudo vai muito bem pelo mundo, só no Brasil ou na América do Sul dominada pelas esquerdas é que não. A Europa não está em estado falimentar, os Estados Unidos não estão pressionados por uma crise sem precedentes, só há corrupção no Brasil e no Terceiro Mundo, o Japão vai muito bem, embora estagnado há décadas e por aí adiante. 

Outras ilusões vendidas: caso ganhe as eleições presidenciais algum dia, a direita não vai mexer nos direitos trabalhistas. Vai sim. Vai mexer nas férias remuneradas, no salário mínimo, na Justiça do Trabalho, nas indenizações, em suma, em tudo aquilo que ela vê como elevação do “custo Brasil”, quer dizer, as obrigações sociais que o empresariado tem de cumprir. Espero que quem viver não veja, mas quem ver a vitória da direita, verá. 

Mas as piores, as mais daninhas, são aquelas que a direita mantém para si mesma. Vamos começar pelas internas. Cada grupo, cada político da direita, alimenta a ilusão de que poderá livremente instrumentar os e as demais. Serra acha que poderá instrumentar Aécio e Alckmin, este que vai instrumentar os outros dois e aquele, este e aqueloutro. FHC acha que poderá instrumentar todos eles em função de seu sonho de garantir seu lugar no Panteão dos grandes chefes de estado nacionais, transformadores e consolidadores, por ora ocupado por Pedro II, Vargas e Lula, nesta ordem cronológica. Vã ilusão de todos. Haverá uma briga de foice entre eles, e FHC já está condenado a ser o ex-intelectual brilhante, ainda que conservador, que esqueceu tudo o que escreveu antes e se tornou um político medíocre, aprendiz de golpista nos últimos tempos. 

Além disto, os líderes da direita pensam que poderão instrumentar os movimentos de rua, os pró-impeachment, os pró-ditadura e os pró-coisa nenhuma, e estes pensam que poderão instrumentar aqueles e os outros movimentos. Esta ilusão pode sair cara a eles, mas será mais cara a nós, democratas pró ou contra o governo, pois se aqueles prevalecerem eles começarão por comer quem a eles se opuser mas terminarão por se comer a si mesmos, num processo longo, doloroso, inseguro, e cheio de solavancos, como aconteceu com a ditadura de 21 anos que engolimos décadas atrás. 

Também alimentam a ilusão de que serão recebidos como salvadores da pátria. A menos que tenham o apoio das Forças Armadas e que estas calem os movimentos sociais à bala, o que parece improvável, uma vitória do impeachment, por exemplo, mergulhará o país no caos, além de liberar de fato uma gandaia de corrupção, pois a PF perderá a autonomia, o Ministério da Justiça virará um bordel, o Procurador Geral da Republica voltará a ser o Engavetador-Mór, etc.,  o arrocho em cima dos trabalhadores, aposentados e estudantes seguirá o modelo europeu, enfim, o Brasil vai virar uma república dividida entre a banana e o abacaxi, além do pepino. 

Por fim, a direita alimenta a ilusão, esta para si e também à venda, de que será recebida de braços abertos pela “comunidade internacional”, aquela que para ela conta: a Europa Ocidental, ou circuito Helena Rubinstein, os Estados Unidos, supermercados de Miami à frente, e o Japão, recessão à parte. Vã ilusão. Seremos recebidos – pois estaremos juntos nesta anti-aventura – com risotas de bastidor, finalmente reconduzidos ao curral de onde nunca deveríamos ter saído, aquele reservado aos pobres que não têm remédio nem saída, governados pelos oligarcas de plantão. 

A outra ilusão é a de que tudo isto é possível. Não é mais. O Brasil não voltará ser o que era. O Brasil enveredou para o futuro. Seja lá o que seja ele.
 

sexta-feira, 27 de março de 2015

A Standard & Poor destruiu o discurso apocalítico da mídia ao trazer ao debate uma coisa: a verdade.

Se você acreditou na Empiricus e se encheu de dólar, más notícias

Por Paulo Nogueira, no DCM

Se você acreditou na Empiricus e se encheu de dólar, más notícias
Não há muito tempo, o Brasil parecia em estado terminal, no noticiário das grandes empresas jornalísticas.
Com evidente alegria, os editores e comentaristas empilhavam previsões apocalípticas.
O G1 – cujo chefe, Erick Bretas, conclamou os seguidores no Facebook a bater pernas no protesto de 15 de março – lutava para dar o furo do fim do mundo, ou especificamente do Brasil.
Na manchete, várias vezes, você tinha no G1, em tempo real, a marcha do dólar.
A consultoria de investimentos Empiricus contribuía para a atmosfera fúnebre. Anúncios seus espalhados pela internet traziam um título assustador: “O dólar a 4”.
Dentro desse clima, lances teatrais espoucavam aqui e ali. Num deles, um colunista econômico avisou que estava deixando o Brasil. Miami o chamava.
Era um Bolsa Patroa. Sua mulher ganhara uma bolsa e ele pegou carona. Mas, para todos os efeitos, o bilhete aéreo do colunista sugeria o começo de um êxodo dos melhores cérebros nacionais.
Alguns imaginaram: agora até o Lobão vai embora.
Para os que torcem pelo pior, como a mídia, tudo corria bem – até que uma coisa se impôs.
A verdade.
Ela apareceu numa análise que nenhum jornalista da grande mídia tem competência ou coragem para contestar.
Quem a produziu foi a agência de análise de risco S&P. Os colunistas brasileiros podem errar quanto quiserem, desde que seja contra o PT. Não acontece nada.
Mas cabeças rolam na S&P caso as previsões sejam erradas, porque há muito dinheiro em jogo. Se os investidores colocarem recursos em países ou empresas que tenham a chancela de uma agência e se derem mal, as consequências imediatamente se manifestam.
E a S&P disse o seguinte sobre 2015, em linhas básicas: a economia do Brasil deve recuar 1%, para crescer 2% em 2016.
O dólar médio deve ficar em 3,1 reais. (O que quer dizer que quem acreditou na Empiricus e se abarrotou de dólares pode já pensar na hipótese de processá-la.)
Para chancelar essa visão, a S&P manteve a classificação do Brasil como um bom lugar para investir.
Para quem acompanha – e acredita – nas colunas econômicas da imprensa, foi uma surpresa formidável.
Como assim? Quero bater panelas.
A Petrobras, que a mídia transformou num cadáver, recebeu um voto de confiança expressivo da agência. Manteve sua boa classificação.
Como assim? Quero gritar que o patrimônio nacional foi dilapidado e ir para as ruas com a roupa da seleção.
Todo o drama que a mídia anunciava foi pulverizado com uma simples análise de quem é do ramo.
O quadro é aquele para o ano. Uma queda de 1% na economia não deve ser comemorada com champanha, naturalmente, mas está longe de ser um desastre.
Se administrada de tal forma que os mais humildes sejam poupados, sai na urina, como dizia minha Tia Zete.
Sem se dar conta, a S&P tirou a voz dos profetas do apocalipse. Caso insista em dar o dólar em tempo real na primeira página, o G1 vai ficar até dezembro girando pateticamente em torno de 3,1 reais.
Os comentaristas se recolheram, prudentemente.
Sobraram no palco os tolos, como o senador Aécio Aeroporto Neves. Aécio disse que Dilma deve desculpas por tirar perspectiva de futuro melhor para os brasileiros.
Ora, sabemos todos como seriam as “medidas impopulares” que Aécio prometeu à plutocracia que adotaria caso se elegesse.
Sabemos também quem mereceria sua atenção como presidente – ela mesma, a plutocracia que tanto lutou para levá-lo ao Planalto.
Tudo isso posto, quem acredita que os brasileiros se dariam melhor com Aécio acredita em tudo, como disse Wellington.
A S&P reduziu ao silêncio o tom dos gerentes gerais da catástrofe alojados na mídia.
Falta Aécio cair na real.

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Dinheiro sujo do Suiçalão pagou campanhas do PSDB?



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Por Miguel do Rosário, no Cafezinho

Nada como um dia após o outro!
Como desconfiávamos, o Suiçalão é um covil de tucanos gordos.
Agora entendemos porque Fernando Rodrigues sentou-se em cima da lista por tanto tempo, e ainda tentou engambelar a sociedade com aquele papo de que só divulgaria nomes com “interesse público”.
Interesse público uma pinoia!
Diante da pressão das redes sociais, Rodrigues sentiu a batata assando e passou a bola pra Globo, até porque somente a Globo tem capacidade para criar uma narrativa astuta o suficiente para denunciar sonegadores, e ao mesmo tempo protegê-los da sanha justiceira do populacho.
É uma hipocrisia tão grande quanto Agripino Maia participando de marcha contra a corrupção.
A Globo revela que o tesoureiro de várias campanhas presidenciais tucanas, Marcio Fortes, tinha conta secreta na Suíça, não-declarada à Receita Federal, e que esse mesmo tesoureiro fazia doações pessoais milionárias para campanhas eleitorais do PSDB.
Segundo a reportagem, no ano 2000 Fortes foi a pessoa física que mais doou dinheiro ao PSDB – o equivalente a 21% do total arrecadado pela legenda nessa modalidade de financiamento.
Seria Marcio Fortes o “homem da mala” do PSDB, cujas campanhas ele abastecia com dinheiro sonegado à Receita, possivelmente fruto de propinas, já pagas ou agendadas para serem pagas após as eleições, caso o PSDB cumprisse o prometido?
O PSDB cumpriu o prometido, com prazer. O governo FHC privatizou dezenas de estatais, inclusive metade da Petrobrás, cujas ações foram vendidas a preço de banana na bacia das almas da bolsa de Nova York.
Diante de tudo isso, qual é a manchete do Globo?
“Políticos também tinham conta no HSBC”.
Ora, vão pentear bodes!
A manchete tinha de ser: Dinheiro sujo do Suiçalão comprou campanhas do PSDB.
Mas tudo bem, vira manchete no Cafezinho.
Outra notícia bastante interessante é a de que Fortes, que foi candidato a vice-governador na chapa de Fernando Gabeira, em 2010, doou meio milhão para a campanha do nosso ex-querido defensor da maconha. E isso dias depois de Gabeira ameaçar “dar uma banana” ao PSDB caso não recebesse mais apoio financeiro.
Ah, Gabeira, isso é mucho loco bicho! O seu baseado eleitoral foi pago com dinheiro sujo do Suiçalão!
Agora vai ficar difícil para você manter a pose de lacerdista indignado em seus artigos.
Se tivessem encontrado algum petista graúdo no Suiçalão, seriam 20 minutos de Jornal Nacional, manchetes garrafais nos jornalões de todo país, e dá-lhe martelar a notícia de dez em dez minutos nas rádios corporativas.
Ah, encontraram um petista, o vereador Marcelo Arar.
Só que tem um detalhe. Na época em que abriu e fechou a conta secreta, Marcelo Arar era filiado ao PSDB.
Como diria o blogueiro Paulo Henrique Amorim: quá, quá, quá!
O petista que encontraram no Suiçalão é, na verdade, um tucano!
De qualquer forma, é peixe pequeno.
O nome pesado da lista, o que tem mais “interesse público” é Marcio Fortes, secretário nacional do PSDB e tesoureiro de inúmeras campanhas tucanas.
(Atualização: Fortes foi tesoureiro nacional do partido).
Se o Suiçalão já pegou um montão de tucano gordo, Marcio Fortes pode ser considerado o mais obeso de todos.
É um tucano obeso-mórbido!
A Globo e a mídia, em geral, tentam desviar a atenção da opinião pública, misturando esse tubarão branco a um monte de lambari de outros partidos.
Nem vem que não tem.
É preciso focar em Marcio Fortes, ele é a chave da cadeia onde vários tucanos poderiam passar uma belíssima temporada, caso tivéssemos um ministério público e uma justiça republicanos o suficiente para enfrentar a Globo e prender corruptos do PSDB.
Assim como Aécio Neves, cujo pai foi deputado da Arena, o partido oficial do regime militar, Marcio Fortes também é um filhote da ditadura.
Aos 34 anos, em pleno regime de exceção, Fortes foi nomeado secretário-geral do Ministério da Fazenda, na gestão de Karlos Heinz Rischbieter. Nessa condição foi, por várias vezes, ministro da Fazenda interino.
Desde então, Fortes surfaria na crista da onda, ocupando sempre os cargos que mais lidavam com dinheiro.
Assumiu a presidência do BNDES em 1987, à frente do qual comandou o primeiro programa de privatização do país.
De 1993 a 1994, Fortes foi secretário de obras do município do Rio de Janeiro, função que lhe permitiu amealhar os recursos para fazer uma campanha eleitoral milionária em 1994.
De 1999 a 2003 foi secretário-geral do PSDB.
Fortes está relacionado a três contas no HSBC suíço, mas não sabemos quanto dinheiro, no total, ele movimentou. A Globo só nos informa que uma das contas ainda estava ativa em 2007, com um saldo de 2,4 milhões de dólares.
Ora, não queremos apenas o saldo. Queremos o extrato!
O tucano foi dono de uma empresa de construção civil, a João Fortes. Um ramo de negócios bastante conveniente para um político que é “secretário municipal de Obras”.
Imagine se Lula fosse dono de empreiteira, tivesse conta secreta não-declarada na Suíça e tivesse sido o principal doador individual para campanhas do PT?
Seria um escândalo. Mas tucano é que nem índio: inimputável. Pode cometer o crime que for, não há editoriais indignados, nem “protestos” de rua.
Os “revoltados online” também não parecem dar muita bola para os crimes de colarinho branco cometidos pelos bicudos.
Cada vez eu entendo mais a amargura de um Aloizio Mercadante e dos petistas de São Paulo, de maneira geral: eles devem praguejar contra o destino, todos os dias, por não lhes terem concedido a graça divina de nascerem tucanos.
Só tem uma categoria profissional, além de petistas de SP, com mais inveja de tucanos: narcotraficantes. Todos eles devem invejar o dono daquele carregamento de meia tonelada encontrada no helicóptero. Como o proprietário do helicóptero era senador amigo de tucano, não aconteceu nada, ninguém foi preso.
Se um petista graúdo (e autêntico, petista mixuruca e tucano como Marcelo Arar não conta) fosse pego com conta secreta na Suíça, não declarada à Receita, teria que se aconselhar com José Dirceu para saber como conviver com repórteres dia e noite acampados na porta da sua casa.

O custo, o benefício e o fascismo


Por Sylvia Debossan Moretzsohn no Observatório da Imprensa

O que deveria ter sido uma manchete escancarada e escandalizada sobre uma aberração jurídica foi solenemente ignorado pela imprensa mais influente no país. Ao noticiarem o pacote anticorrupção do Ministério Público Federal, dois dias depois de o governo apresentar seu próprio conjunto de medidas nessa área, os três principais jornais deram ênfase ao endurecimento das penas, à classificação de crime hediondo para a corrupção que envolvesse altos valores, à possibilidade de extinção de partidos políticos envolvidos na roubalheira. Tudo de acordo com o argumento, tão surrado quanto falso, de que penas mais duras inibem a disposição para o cometimento de crimes. Mas, claro, tudo muito ao gosto popular, como a imprensa sabe desde sempre e o MPF, pelo visto, também.
Os jornais só se esqueceram de um detalhe: a proposta de validar provas ilícitas, embutida no pacote.
O Globo ignorou o assunto completamente. O Estado de S.Paulo, que na véspera (20/3) havia antecipado o anúncio das medidas, trouxe uma única referência a esse absurdo no quadro sobre “Propostas contra corrupção” da matéria coordenada na página 11 da edição seguinte: “Ajustes nas nulidades penais” – e o leitor que se vire para descobrir do que se trata. A Folha de S.Paulo também publicou um quadro em que cita as “nulidades”, com uma explicação pouco esclarecedora: “Tenta evitar que pequenos erros na fase de investigação derrubem operações inteiras”. No meio da reportagem, deu voz ao procurador Deltan Dallagnol, responsável pelas ações da Operação Lava Jato na Justiça Federal do Paraná:
“Eledestacou a necessidade de ajustes nas nulidades penais, erros que podem levar à derrubada completa de uma investigação na Justiça – como aconteceu com a operação Castelo de Areia, que caiu por ter usado grampos telefônicos na fase inicial de apuração.
De acordo com Dallagnol, é preciso ponderar o tamanho do erro. ‘Não podemos derrubar um prédio porque se encontrou um vazamento num cano. Somente erros muito graves podem levar à derrubada de um prédio’.”
É só a cabecinha?
O apelo a metáforas é comum para tentar facilitar o entendimento de coisas complexas. Mas às vezes – muitas vezes, quase sempre – a simplificação é mistificadora. Sim, quem se preocuparia com detalhes, filigranas jurídicas, diante do mal maior a ser combatido? Apresentada assim, a proposta parece muito palatável, principalmente para quem não tem conhecimento do mundo jurídico e político nem percebe a abrangência e as consequências dessas singelas “exceções”. E que, ainda por cima, está clamando nas ruas contra a corrupção: tantos pudores em relação a investigações, ora, que bobagem... queremos os criminosos na cadeia!
Seria ótimo, se fosse tão simples. Porém, as coisas são bem mais complicadas que isto. Se apelássemos para outra metáfora popular, aquela que diz que “é só a cabecinha”, talvez fosse possível começar a esclarecer o que está em jogo.
O alerta do Conjur
Quem chamou a atenção para esse escândalo – e fez jornalismo a sério, como tem feito regularmente, na contramão da grande imprensa – foi o site Consultor Jurídico, que, na noite de sexta-feira (20/3), destacou: “MPF propõe mudança para que prova ilícita seja aceita na Justiça“.
Esta seria a notícia, pelos critérios que os jornais celebram em seus manuais, e os editores em suas entrevistas, mas teimam em descumprir.
A reportagem informa que o uso de provas ilícitas implica mudança no Código de Processo Penal e estaria subordinado a uma espécie de relação custo-benefício: ocorreria quando“os benefícios decorrentes do aproveitamento forem maiores do que o potencial efeito preventivo”. Faz lembrar as “técnicas de interrogatório avançadas” ou “conjunto de procedimentos alternativos” do discurso malabarista da CIA para deixar de nomear a prática de tortura na obtenção de informações na sua “guerra ao terror”. Mas não: para tranquilidade geral da nação, em boa hora os nossos procuradores ressalvam que casos de tortura, ameaça e interceptações sem ordem judicial não seriam admitidos.
Ainda bem.
A reportagem confronta, em seguida, o artigo 5º da Constituição – “cláusula pétrea” – que afirma serem “inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”, com o argumento favorável a essa, digamos, flexibilização: segundo o subprocurador geral da República Nicolao Dino Neto, chefe da Câmara de Combate à Corrupção, “é preciso fazer uma ponderação de interesses e verificar em que medida a eventual irregularidade na produção da prova pode indicar prejuízo à parte. Se não houver algo que evidencie prejuízo à defesa, nada justifica a exclusão dessa prova”.
Reação vigorosa
A notícia provocou a reação do jurista e procurador aposentado Lenio Streck, que indagou, no mesmo site do Conjur: “O que fazer quando o Ministério Público quer violar a Constituição?“ De saída, acusou: “Querem regras mais fáceis... para o MP. E para a Polícia. Pouco importa o que diz a Constituição”. Em seguida, contestou:
“O que é a ponderação de interesses? Interesses de quem? Estamos tratando de direitos ou de interesses? Voltamos ao início do século XX? Estão lendo os livros errados lá no MPF? Ninguém estuda nesse país?
“E o que é ‘eventual irregularidade’? Quem diz o que é e o que não é irregularidade? O MP? O juiz, com sua consciência? Ah, bom. Vamos depender das boas consciências de juízes e promotores”.
Lenio Streck apontou também a sugestão de que os ajustes no Código de Processo Penal prevejam que, no caso de anulação de atos praticados durante as investigações, o juiz ordene providências para que sejam “repetidos ou retificados”. “Como assim, Excelência? Quer dizer que, se existir uma prova ilícita, o juiz pode mandar consertá-la? Vou estocar comida. Passaram dos limites”.
Mas o principal é a sua consideração mais geral sobre o sentido da proposta:
“Quer dizer que a interceptação telefônica pode ser feita inconstitucionalmente? Quer dizer que os fins justificam os meios? E os efeitos colaterais? E o precedente que isso gera, procurador? Ah, mas era uma carga de cocaína. Ótimo. E quem diz que o juiz ou o promotor ou o policial não vão usar isso em outras ocasiões? Abrir a porteira do ilícito cometido pelo Estado é cair na barbárie. Isso mesmo”.
Exceção ilimitada
Vale a pena recordar aqui um trecho do livro O inimigo no direito penal (ed. Revan, 3ª ed., 2011), em que o jurista argentino Eugênio Zaffaroni desmonta o argumento de que medidas de exceção possam ser adotadas, como seus defensores candidamente sustentam, “apenas na estrita medida da necessidade”:
“(...) para os teóricos – e sobretudo para os necessidade que não conhece lei nem limites. Aestrita medida da necessidade é a estrita medida de algo que não tem limitespráticos – da exceção, sempre se invoca uma  porque esses limites são estabelecidos por quem exerce o poder”.
As pessoas comuns não parecem compreender isso e se regozijam quando os limites legais são ultrapassados para punir alguém que, publicamente – portanto, de acordo com a propaganda promovida pela mídia –, é apontado como inimigo público. Não percebe que o uso da exceção acaba transformando-a em regra, e que todos estarão expostos a essa situação, ficando à mercê “das boas consciências de juízes e promotores” ou, pior que isso, de todos os constrangimentos que os agentes do Estado podem exercer, diante das previsões de excepcionalidade legal.
“Constrangimento”, claro, é uma denominação mais delicada para “corrupção”, exatamente o que tanto se deseja combater.
As perversões do espetáculo
Tudo isso se encaixa no que o juiz Rubens Casara chamou, em artigo publicado em fevereiro deste ano, de “processo penal do espetáculo” (ver aqui), evidenciado nos casos que ganham repercussão na mídia e que transformam delegados, promotores, advogados e juízes em celebridades. Na entrevista a Paulo Moreira Leite (em 22/3, ver aqui), Casara reitera: “O processo penal do espetáculo é uma corrupção”. E explica:
“Ao afastar direitos e garantias fundamentais em nome do bom andamento do espetáculo, o Estado-juiz perde a superioridade ética que deveria distingui-lo do criminoso. Não se pode combater ilegalidades recorrendo a ilegalidades ou relativizando o princípio da legalidade estrita; não se pode combater a corrupção a partir da corrupção do sistema de direitos e garantias fundamentais. Punir, ao menos na democracia, exige o respeito a limites éticos e jurídicos. No processo penal do espetáculo, não é assim”.
Em seguida, aponta a simplificação maniqueísta do processo:
“O espetáculo aposta na exceção: as formas processuais deixam de ser garantias dos indivíduos contra a opressão do Estado, uma vez que não devem existir limites à ação dos mocinhos contra os bandidos. Para punir os ‘bandidos’ que violaram a lei, os ‘mocinhos’ também violam a lei. Nesse quadro, delações premiadas, que, no fundo, não passam de acordos entre ‘mocinhos’ e ‘bandidos’, violações da cadeia de custódia das provas e prisões desnecessárias – estas, por vezes, utilizadas para obter confissões ou outras declarações ao gosto do juiz ou do Ministério Público – tornam-se aceitáveis na lógica do espetáculo, sempre em nome da luta do bem contra o mal”.
E não é só:
“Em nome do ‘desejo de audiência’, as consequências sociais e econômicas das decisões são desconsideradas. Para agradar à audiência, informações sigilosas vazam à imprensa, imagens são destruídas e fatos são distorcidos. Tragédias acabam transformadas em catástrofes. No processo penal do espetáculo, as consequências danosas à sociedade produzidas pelo processo, não raro, são piores do que as do fato reprovável que se quer punir”.
Uma aliança nefasta
Pensemos na construção da imagem do ministro Joaquim Barbosa, durante o Mensalão, como paladino da Justiça, e na do juiz Sérgio Moro, agora na Operação Lava Jato, ambos premiados pelo jornal O Globo, quando o respeito à liturgia do cargo exigiria resguardar-se de holofotes e homenagens promovidas por interesses privados, para preservar a necessária isenção, inclusive na hipótese – remota, é verdade – de certas empresas precisarem ser investigadas. Pensemos no procurador geral, Rodrigo Janot, que recentemente se deixou fotografar com um cartaz que o saudava como “a esperança do Brasil”.
A aliança entre esta imprensa e as autoridades seduzidas pelo espetáculo leva dúvidas quanto ao motivo do silêncio em relação a tamanha aberração no pacote do MPF. Terá sido incompetência, desatenção, incúria? Terá sido conivência? Porque é flagrante demais, escandaloso demais, grave demais para passar despercebido.
A reportagem do Conjur, compartilhada na internet, provocou o comentário de um cidadão espantado: “Talvez eu tenha delirado”, diz ele, mas “talvez estejamos assistindo a uma monstruosa lavagem de provas ilícitas. A Polícia Federal e o Ministério Público podem ter andado espionando cidadãos sem mandado, por suspeita política, e agora obtêm, sob enorme constrangimento em prisões provisórias/permanentes, as confissões que permitirão legalizar aquelas provas anteriormente obtidas de forma ilícita.”
Será mesmo delírio? Se dependermos desta imprensa, jamais saberemos.
Nas recentes manifestações de protesto contra o governo, esta mesma imprensa fez o favor de ocultar as cenas contraditórias ao clima de festa: as ofensas, os insultos e, principalmente, as faixas e discursos que pediam intervenção militar. Pautou-se pela exaltação aos apelos anticorrupção e em defesa da democracia – os mesmos, aliás, que sustentaram o golpe hoje cinquentenário. Agora, ignora a proposta de medidas que instilam o germe do Estado de exceção na carapaça democrática. Estará esta imprensa novamente conivente com o golpismo?
“Abrir a porteira do ilícito cometido pelo Estado é cair na barbárie”, acusou Lenio Streck. Teria a mesma razão se tivesse falado em fascismo.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora deRepórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007
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quinta-feira, 26 de março de 2015

Algumas reflexões acerca das manifestações antigoverno



Por Tadeu Porto, no Brasil Debate


Não quero desqualificar as manifestações que vêm ocorrendo contra o governo atual, principalmente tendo a atual presidente Dilma e o partido dos trabalhadores como alvo. A priori, o mais importante de tudo é que as pessoas podem ir às ruas – ou varandas – se manifestar livremente. Mas, como nada é absoluto, queria trazer alguns itens para reflexão.
Primeiro, focar a insatisfação num só partido não só é preguiça ideológica, mas, também, é não ter noção de como funciona o nosso sistema na teoria e muito menos na prática (federação, 3 (+1) poderes, lobby, mercado etc.).
Preguiça ideológica porque o ataque sistemático ao PT não tem fundamento nem coerência com as atitudes vistas: a maioria dos manifestantes se denomina apartidária, mas, na verdade, é capaz de assumir qualquer partido “só para tirar o PT do poder”.
É um claro desrespeito com a história e a ideologia de cada grupo político e dificulta ainda mais o entendimento de como nossa democracia funciona, dentro do nosso Estado de direito. Não é de se estranhar, por exemplo, que o processo eleitoral seja focado em ataques pessoais e não em propostas e ideias, uma vez que, sem a correta percepção dos pensamentos que estão em jogo, a disputa eleitoral se baseia em imagens superficiais dos candidatos.
Já a não compreensão verossímil do nosso sistema gera um fenômeno interessante, no mínimo: vivemos numa república federativa onde os cidadãos (pior, eleitores) pensam viver numa monarquia, i.e., pensam que ao Executivo cabem todos os deveres de Estado. Se a justiça não julga direito, foi porque o planalto não escolheu bem; se o Legislativo não cria leis adequadas, foi porque a coalização foi feita incorreta e o governo não controla “sua base”.
O grande problema desse pensamento é ignorar completamente que o equilíbrio entre os três poderes acontece, muitas vezes, por meio de um jogo perverso e sujo, em que o lobby, a chantagem e o suborno são as ferramentas mais utilizadas para a tão falada harmonia entre pares. Consequentemente, focar a insatisfação em um só segmento – no caso Executivo Federal – é o campo ideal para criar o bode expiatório ou o boi de piranha e isso atrapalha qualquer combate efetivo à sujeira impregnada em todas as relações políticas.
Segundo, combate à corrupção é um item válido de protestar. Todavia, sem uma proposta específica para tal, pode ser incorporada por qualquer ação, como, por exemplo, a volta da ditadura militar (com torturas e assassinatos) e demais propostas fascistas.
O linchamento moral de corruptos e corruptores hoje, que dá uma sensação boa de justiça, pode ser a perseguição política de amanhã, caso segmentos da democracia acumulem poderes demais e, principalmente, não sejam questionados por isso.
O mais surpreendente é que em termos de números e fatos, nunca se combateu a corrupção como é feito hoje. É de se estranhar, portanto, que o país que era conhecido pela alta impunidade, fique insatisfeito quando, justamente, esse estigma começa a ser fortemente confrontado.
Terceiro, a atuação da mídia não foi normal e isso não é sem motivo. A mídia hoje é um poder virtual e se beneficia muito disso: apesar de ter forte influência sobre a população, podendo formar opiniões e desconstruir pessoas, não tem a mesma cobrança de uma instituição política.
Portanto, ela pode assumir posturas descaradamente antiéticas (vide a capa da Veja/Abril nas vésperas das eleições) sem sofrer consequências de apelo popular, que frequentemente interferem muito nas investigações e julgamento de malfeitos (já escrevi sobre isso, aqui mesmo).
Saliento, assim, um mini estudo de caso para corroborar com esse argumento: todo mundo, da extrema direita à extrema esquerda, quer educação melhor. Agora, quantas vezes uma mídia – pode ser local – fez uma cobertura integral de movimentos de servidores da educação? Quantas greves já vimos e vivemos que foram completamente ignoradas pela imprensa? Se não souber a resposta, procure comparar o comportamento midiático na greve dos servidores de educação do Paraná e de São Paulo (esse ano) com a cobertura 24/7 das manifestações do dia 15 de março.
Agora, imaginem só: se todos querem (chuto aqui 99% do País) uma educação melhor, por que não se juntam nas ruas com professores por melhorias no ensino? Mais exemplos: professores de Contagem (MG) bloquearam uma estrada contra o fechamento de uma escola. “Cerca de 50 pessoas” o fizeram, sem cobertura ao vivo da mídia (agradeço aqui o cinegrafista amador que ajudou na notícia de 30 segundos da Globo), sem hino nacional ou camisas da CBF. Por que o interesse por isso é tão baixo?
Para finalizar e deixar claro: o texto é apenas uma reflexão, e de maneira nenhuma é uma repreensão pelo ocorrido. Manifestações são instrumentos primordiais da democracia, mesmo havendo discordância entre a população sobre o conteúdo, elas devem acontecer (dentro dos limites da lei, óbvio).
Bolsonaro e Paulinho da força (dois cânceres, na minha opinião) foram hostilizados no dia 15 de março, portanto se pode concluir que as ruas não foram tomadas apenas por boçais alienados, mas também por pessoas que querem avanços efetivos para o Brasil.
Só espero que os oportunistas não usem a insatisfação dessas pessoas, dispersa em pautas abstratas, para continuar atrasando o nosso País nas ações que a grande maioria da população quer. Afinal, quem tem a perder com a decadência de um sistema corrupto e injusto é justamente quem quer continuar os privilégios derivados da sujeira praticada desde sempre no País.
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