quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Lula e Dilma reunem 50 mil pessoas em Recife


Quem levou a Fiat para Goiana (PE) foi o Lula


Lula: "ou vota em candidato de banqueiro ou vota em candidato de brasileiro" Foto: Ichiro Guerra

Alisson Matos, editor do Conversa Afiada

Em campanha por Pernambuco, a Presidenta Dilma Rousseff foi a Goiana, onde visitou obras da fábrica da Fiat/Chrysler, que passou a ser construída após o Presidente Lula, em 2010, assinar uma medida provisória, que concedeu incentivos fiscais para a companhia italiana até 2020. À época, o governador era o então aliado do PT Eduardo Campos (PSB), falecido este ano em acidente de avião..  

Na cidade, enquanto Lula puxou o coro de “quem não pula é tucano”, a candidata à reeleição afirmou enfrentar a eleição presidencial mais difícil dos últimos anos. Ao lado de Lula, ela pediu para “não deixar o país ir para trás”. “Eles (os adversários) vestiram pele de cordeiro, que esconde as suas intenções. Eles olham para os mais pobres e não veem neles cidadãos brasileiros. Tem dois projetos disputando essas eleições. Um dos projetos (PSDB) representa os interesses de só um terço do Brasil”, discursou a petista nesta terça-feira (21).

Antes, ambos foram recepcionados por 30 mil pessoas em Petrolina (cidade de Fernando Bezerra, ex-ministro do governo Dilma e eleito senador pelo PSB), onde a ponte que liga a cidade a Juazeiro (BA), foi tomada por uma multidão vermelha. Lá, Dilma destacou que os governos do PT mudaram a realidade do semi-árido e enfrentaram a seca.
“Nós fomos capazes de enfrentar a seca e conviver com a seca. Nós sabemos que a seca vem e temos que estar preparados para ela. O estado mais rico do Brasil, o estado de São Paulo, não se preparou para a seca. O Nordeste se preparou e diante da maior seca, nós temos condições de viver aqui e não ficar catando pingo de água por aí. As milhões de cisternas são uma benção que construímos”, disse.
Ponte tomada de vermelho


Já em Recife, no começo da noite, Lula e Dilma caminharam ao lado de 52 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar. Sem citar o adversário, Aécio Neves (PSDB), a petista fez críticas  aos anos da gestão do PSDB a frente do governo federal e ao programa econômico do PSDB. “Hoje, este país não se ajoelha mais diante do FMI (Fundo Monetário Internacional). Quando os tucanos governaram, o Brasil era devedor de joelhos. Eles plantam inflação para colher juros. Este país deixou de ser a 13ª economia do mundo pra virar a sétima maior economia do mundo”, apontou a Dilma já a noite em Recife.

No comício, o Presidente Lula acusou Aécio  de ser “mal-educado” e “filhinho de papai”, após o candidato dizer que Dilma havia mentido e sido leviana, em debate na televisão. “Onde estava o outro candidato quando Dilma, com apenas 20 anos, colocava a vida em risco pela liberdade? Ele (Aécio) estava aprendendo a ser tão grosseiro, tão mal-educado. Isso só podia ser feito por um filhinho de papai. Um nordestino jamais faria isso”, afirmou o petista.

E continuou: “Eu digo a eles que são mais intolerantes do que nós, querem acabar com a nossa presidenta, chamar ela de leviana.Eu, que já disputei muitas eleições, nunca vi um comportamento tão agressivo. A Dilma não tem que dar satisfação ao Aécio, ela tem que dar satisfação ao povo brasileiro”

Lula também voltou ao assunto preconceito ao lembrar a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de que os eleitores do PT seriam menos informados.

“Lamento que um ex-presidente, sociólogo, diga que nós, nordestinos, somos desinformados. Votamos na Dilma porque somos um povo consciente. Votamos, sobretudo, porque não esperamos ordem do FMI para nos dizer o que fazer”, condenou Lula.

Ao comentar a sugestão da revista inglesa The Economist aos eleitores brasileiros de votar no candidato do PSDB, Lula enfatizou: “ a The Economist dizia que o povo brasileiro tinha que votar no outro candidato. O que a The Economist acha que a gente é? Que eles podem dar ordem e a gente responde? Será que perderam o juízo? Nesta eleição ou vota no candidato do banqueiro ou vota no candidato do brasileiro”, encerrou.
Abaixo outras frases de Lula e Dilma em Recife:


Lula:

Nós votamos na Dilma, porque queremos mais universidades, mais emprego, mais salário, mais Pronatec, pelo pré-sal 

Nós aprendemos a ter dignidade, esperança, a acreditar em nós mesmos 

Sei que ainda há muito a fazer nesse país. Mas foi esse nordestino retirante que teve a decência de lembrar do Nordeste pela primeira vez 

Seria bom se ele (Aécio) não tivesse voto aqui. Ele nunca lembrou do Nordeste 



Dilma:

eu enfrento a mais disputada eleição presidencial

Eu estou em um estado de homens e mulheres conscientes, lutadores, com uma história política de reconhecimento 

Em 2003, começou a certeza de que o brasileiro tivesse voz e vez; tivesse reconhecido o direito ao emprego, ao salário decente 

Em 2003, começou a reconhecimento do direito do trabalhador colocar seu filho na universidade 

Vamos lembrar que os tucanos são aqueles que proibiram a construção de escolas técnicas no nosso país 

Em 8 anos, os tucanos fizeram 11 escolas técnicas. Eu e o Lula fizemos 422 por todo o país 

Vamos lembrar que eles conseguiram bater o recorde de desemprego nesse país, em 2001 e 2002 

Eles entregaram uma herança maldita para o Lula: mais de 11 milhões de brasileiros desempregados 

Nós, desde 2003, criamos 20 milhões de empregos. No meu governo, são mais de 5 milhões 

Nós nos orgulhamos do desenvolvimento de Pernambuco e de todo o Nordeste 

Nós tiramos o atraso promovido pelo governo dos tucanos no Nordeste 

Eu tenho muito orgulho da parceria que construiu em Pernambuco oportunidades de trabalho, infraestrutura, MCMV, Mais Médicos 

Hoje, nós estivemos em Goiana, visitando a unidade da Fiat. Uma trabalhadora me agradeceu pela filha estudar na Alemanha 

Hoje, o filho do trabalhador pode ser engenheiro, pode ser doutor! 

O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, depois de séculos de sofrimento 

Eu tenho um pedido: não deixem esse país ir pra trás 

Vamos mostrar que o Brasil tem mulheres e homens de coragem e fé. Um beijo no coração

Dilma: O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, depois de séculos de sofrimento

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A emoção de Rodrigo Vianna no Tuca: a Dilma é brizolista!​



Bresser, Maringoni, Raduan Nassar – e Chico ! Chico Buarque !



Foram dez minutos, sem microfone, sem marqueteiro. O povo cantava, e Dilma respondia – sem palavras.


De sujissimo blogueiro Rodrigo Vianna, no Conversa Afiada


Caros
Segue meu relato sobre o que vi ontem no TUCA em São Paulo.
Foi impressionante.
Abs
Rodrigo.


A FORÇA SIMBÓLICA NO ATO COM DILMA E LULA NA PUC DE SÃO PAULO



Desde a campanha de 89 que não se via um ato político com tamanha carga de emoção em São Paulo. Os paulistas que votam no PT (e também aqueles que, apesar de não gostarem tanto do PT, resolveram reagir à onda de ódio e conservadorismo que tomou conta das ruas) foram nesta segunda-feira/20 de outubro para o TUCA – histórico teatro da PUC-SP, no bairro de Perdizes.

O TUCA tem um caráter simbólico. E o PT, há tempos, se descuidara das batalhas simbólicas. O TUCA foi palco de manifestações contra a ditadura, foi palco de atos em defesa dos Direitos Humanos. Portanto, se há um lugar onde os paulistas podem se reunir pra dizer “Basta” à onda conservadora, este lugar é o teatro da PUC.

O PT previa um ato pra 500 ou 800 pessoas, em que Dilma receberia apoio de intelectuais e artistas. Aconteceu algo incrível: apareceu tanta gente, que o auditório ficou lotado e se improvisou um comício do lado de fora – que fechou a rua Monte Alegre.

Em frente ao belo prédio, com suas arcadas históricas, misturavam-se duas ou três gerações: antigos militantes com bandeiras vermelhas, jovens indignados com o tom autoritário e cheio de ódio da campanha tucana, e também o pessoal de 40 ou 50 anos – que lembra bem o que foi a campanha de 89.

No telão, a turma que estava do lado de fora conseguiu acompanhar o ato que rolava lá dentro. Um ato amplo, com gente do PT, do PSOL, PCdoB, PSB, além de intelectuais e artistas que estão acima de filiações partidárias (como o escritor Raduan Nassar), e até ex-tucanos (Bresser Pereira).

Bresser, aliás, fez um discurso firme, deixando claro que o centro da disputa não é (nunca foi!) corrupção, mas o embate entre ricos e pobres. “Precisou do Bresser, um ex-tucano, pra trazer a luta de classes de volta à campanha petista” – brincou um amigo jornalista.

Gilberto Maringoni, que foi candidato a governador pelo PSOL em São Paulo, mostrou que o partido amadurece e tende a ganhar cada vez mais espaço com uma postura crítica – mas não suicida. Maringoni ironizou o discurso da “alternância de poder” feito pelo PSDB e pela elite conservadora: “Somos favoráveis à alternância de poder. Eles governaram quinhentos anos. Nos próximos quinhentos, portanto, governaremos nós”.

O “nós” a que se refere Maringoni não é o PSOL, nem o PT. Mas o povo – organizado em partidos de esquerda, em sindicatos, e também em novos coletivos que trazem a juventude da periferia para a disputa.

Logo, chegaram Dilma e Lula (que vinham de outro ato emocionante e carregado de apelo simbólico – na periferia da zona leste paulistana). Brinquei com um amigo: “bem que a Dilma agora podia aparecer nesse balcão do TUCA, virado pro lado de fora onde está o povo…”. O amigo respondeu: “seria bonito, ia parecer Dom Pedro no dia do Fico”. Muita gente pensou a mesma coisa, e começaram os gritos: “Dilma na janela!”

Mas a essa altura, 10 horas da noite, só havia o telão. As falas lá dentro, no palco do Teatro, foram incendiando a militância que seguia firme do lado de fora – apesar da chuva fina que (finalmente!) caía sobre São Paulo. Vieram os discursos do prefeito Fernando Haddad, de Roberto Amaral (o presidente do PSB que foi alijado da direção partidária porque se negou a alugar, para o tucanato, a histórica legenda socialista), e Marta Suplicy…

Vieram os manifestos de artistas e professores – lidos por Sergio Mamberti. E surgiram também depoimentos gravados em vídeo: Dalmo Dallari (o antigo jurista que defende os Direitos Humanos) e Chico Buarque.

Quando este último falou, a multidão veio abaixo. A entrada de Chico na campanha teve um papel que talvez nem ele compreenda. Uma sensação de que – apesar dos erros e concessões em 12 anos de poder – algo se mantem vivo no fio da história que liga esse PT da Dilma às velhas lutas em defesa da Democracia nos anos 60 e 70.

Nesse sentido, Chico Buarque é um símbolo só comparável a Lula na esquerda brasileira.

Aí chegou a hora das últimas falas. Lula pediu que se enfrente o preconceito. Incendiou a militância. E Dilma fez um de seus melhores discursos nessa campanha. Firme, feliz.

O interessante é que os dois parecem se completar. Se Lula simboliza que os pobres e deserdados podem governar (e que o Estado brasileiro não deve ser um clube de defesa dos interesses da velha elite), Dilma coloca em pauta um tema que o PT jamais tratou com a devida importância: a defesa do interesse nacional.

Dilma mostrou – de forma tranquila, sem ódio – que o PSDB tem um projeto de apequenar o Brasil. Lembrou os ataques ao Brasil nas manifestações contra a Copa (sim, ali o que se pretendia era rebaixar a auto-estima do povo brasileiro, procurando convencê-lo de que seríamos um povo incapaz de receber evento tão grandioso), lembrou a incapacidade dos adversários de pensarem no Brasil como uma potência autônoma.

Dilma mostrou clareza, grandeza e calma. Muita calma.

Quando o ato terminou, já passava de 11 da noite. E aí veio a surpresa: Dilma foi – sim – pra janela, para o balcão do Teatro voltado pra rua.

dilma-no-tucaNo improviso, sem microfone, travou um diálogo com a multidão, usando gestos e sorrisos. Parecia sentir a energia que vinha da rua. Dilma, uma senhora já perto dos 70 anos (xingada na abertura da Copa, atacada de forma arrogante nos debates e na imprensa), exibiu alegria e altivez.

Foram dez minutos, sem microfone, sem marqueteiro. O povo cantava, e Dilma respondia – sem palavras. Agarrada às grades do pequeno balcão, pulava e erguia o punho cerrado para o alto. Não era o punho do ódio. Mas o punho de quem sabe bem o lado que representa.

Dilma não é uma oradora nata, não tem o apelo popular de um Lula. Mas nessa campanha ela virou líder. O ato no TUCA pode ter sido o momento a marcar essa passagem. Dilma passa a ser menos a “gerente” e muito mais a “liderança política” que comanda um projeto de mudança iniciado há 12 anos.

Dilma traz ao PT uma pitada de Vargas e Brizola, de trabalhismo e de defesa do interesse nacional. E o PT (com apoio da militância popular, não necessariamente petista) finalmente parece ter incorporado Dilma não como a “continuadora da obra de Lula”, mas como uma liderança que se afirma por si. Na luta concreta.

Uma liderança que – na reta final, nessa segunda-feira de garoa fina em São Paulo – pulava feito menina no ritmo da rua, pendurada no histórico balcão da PUC de São Paulo. Dilma ficou maior.

Navalha
Não há noticia de que Caetano Velloso estivesse na multidão.
Ou não ?
Paulo Henrique Amorim


COMENTÁRIOS

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O lugar onde Dilma e Aécio puderam fazer: Bonito, em Minas





Por Fernando Brito, no Tijolaço


Aécio disse ontem no debate que não foi Presidente da República, embora tenha sido figurão nos oito anos de Governo FHC.

Mas foi governador de Minas, por oito anos e sucedido por um correligionário, como Dilma fez a Lula.

E certamente poderia, por lá, ter demonstrado sua preocupação com a situação de pobreza aguda de muitas cidades e povoados mineiros.

A bela reportagem, de Patrícia Britto, da equipe do Brasil, blog da Folha, é uma lição aos pretensiosos.

Porque os 69 eleitores de Galho de São Domingos, um comunidade do pequeno município de Bonito de Minas, habitada por seres humanos como nós comparou seus dois governantes: Aécio e Dilma.

É uma gente estranha, talvez, por querer muito pouco: poder plantar, comer, não ver os filhos morrerem de inanição.

E a Dilma deram todos os votos, sem faltar nenhum.

Como fizeram quase todos os 4822 eleitores de Bonito de Minas, ao qual pertence Galho de São Domingos e sua pobreza, no qual Dilma venceu com 86,6% dos votos daqueles mineiros, que só deram 10,8% ao homem que os governou por oito anos e manda lá por mais quatro, com seu “choque de gestão”.

Que bom que o meu voto valha tanto quanto o deles, gente que dá muito e quase nada recebe.

Porque o que me faz humano e brasileiro é entender que eles o são tanto quanto eu.

Se lhes matam a fome do estômago, matam a fome de minha consciência.

Se lhes acendem uma luz elétrica à noite, a mim também clareiam.

Se os reconhecem como seres humanos, a mim permite viver sem tantas culpas, por ter mais do que tiveram meus pais e meus avós.

O que eles querem é tão simples, tão singelo, tão pouco que chega a dar vergonha das nossas sofisticações.

Diz lá o seu Domingos, servente como eu, que acho servir de muito:

“A gente não quer sofrer”.

Só.

E tem gente por aqui que acha que o senhor quer muito, Seu Domingos.

E que eles é que sofrem, em meio a abundância em que vivem.


Conheça a comunidade rural onde Dilma teve 100% dos votos


Por Patrícia Britto, na Folha


Em um povoado da zona rural de Bonito de Minas, município do norte mineiro a 644 km de Belo Horizonte, todos os 69 eleitores que votaram no primeiro turno das eleições deste ano têm algo em comum: escolheram a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição.

Para chegar até a Escola Municipal de Galho de São Domingos II, onde foi a votação, a urna eletrônica da zona eleitoral mineira de número 148, seção 378, teve que ser levada em um veículo com tração nas quatro rodas, desde o centro de Bonito de Minas, por 46 km de uma estrada que toda um areão.

Esse percurso dura mais de uma hora e cruza cenários que vão de um balneário no rio Catulé a terrenos com árvores típicas do cerrado brasileiro, com folhas ressecadas nesta época do ano. O cheiro de queimada é frequente nos meses de seca.

Ao lado do prédio, cercado de mato e areia, a placa apoiada numa árvore informa: “Escola rural de uma sala de aula”.

Nesta sala única, 22 alunos de quatro séries diferentes dividem a atenção da professora, também moradora da comunidade. Com cerca de 50 metros quadrados, a escola tem ainda dois banheiros e uma cantina.

É lá onde votam as 38 famílias que vivem no Galho de São Domingos II, uma das 35 comunidades rurais de Bonito de Minas. Um desses eleitores é o servente Domingos Armindo Ribeiro, 54, que tem uma relação antiga com o local: foi ele quem construiu o primeiro prédio da escola, há 16 anos –na época, uma rudimentar casa de pau-a-pique.

Para a família de Domingos, a vida no povoado se transformou nos últimos anos com a chegada de programas federais como o Bolsa Família, que seus quatro filhos recebem.

“Se o governo não tivesse ajudado meus filhos, o que eu ganho seria pra partilhar com eles”, diz o servente, que recebe um salário mínimo para limpar a escola e fazer a merenda dos alunos.

O servente Domingos Armindo Ribeiro, 54, em comunidade rural de Bonito de Minas – Foto de Ernesto Rodrigues/Folhapress

Antes da construção da escola, seu Domingos fazia bicos para sobreviver, cortando lenha, enquanto a mulher trabalhava na roça.

“Eu nunca tive moleza na vida não, pra mim tudo foi duro, mas está bom. Se o governo não tivesse ajudado, eu já tinha ido pra debaixo da terra.”

O voto em Dilma, diz ele, é para tentar garantir os benefícios que recebem: “A pessoa não quer trocar o certo pelo duvidoso. Antes um na mão do que dois avoando”.

“Os pobres não pulam pro outro lado por medo. Às vezes, os candidatos fazem uma promessa, dizem que vão fazer isso e aquilo, e quando chegam no poder dizem que só vão fazer o que quiserem, e temos que aguentar por quatro anos. A gente não quer sofrer.”

Atualmente, mais da metade dos moradores de Galho de São Domingos II são beneficiados pelo Bolsa Família. A energia elétrica chegou em 2007. Há ainda bolsa para afetados pela estiagem, moradias em construção pelo programa Minha Casa, Minha Vida, e as estradas começaram a ser melhoradas com ajuda de máquinas doadas pelo governo federal.

Segundo o prefeito José Reis (PPS), por muitos anos o município teve dificuldades para se desenvolver por estar em uma “zona cinzenta” entre Nordeste e Sudeste, o que começou a ser superado com a chegada dos programas federais.

“O Norte de Minas tem características climáticas do Nordeste, mas quando apresentamos propostas temos certa restrição porque estamos na área geográfica do Sudeste. Não recebemos nem os incentivos do Nordeste nem os benefícios do Sudeste. Ficamos numa zona cinzenta, num vácuo de divisão geográfica, de investimento e de reconhecimento pela União e Estado.”
Para Eustáquio Gonçalves dos Santos, 62, que preside a associação de moradores do povoado, foram esses benefícios que fizeram Dilma conquistar o voto de todos os eleitores do local.
de Dilma e Aécio puderam fazer: Bonito, em Minas
20 de outubro de 2014 | 13:50 Autor: Fernando Brito

“O trabalho que o Lula fez permitiu que a Dilma desse continuidade. Aqui melhorou foi 100%, e o povo carente não quer perder de jeito nenhum”, disse.

A opinião é compartilhada pela dona de casa Francisca de Assis Viana dos Santos, 60, mulher de Eustáquio.“Antes, o pessoal vivia como se fosse escravidão. A gente tinha que dividir o que tinha com as pessoas ao redor que não tinham o que comer. Hoje, você pode ver, ninguém perturba mais ninguém pedindo, hoje todas as pessoas da roça têm o que comer.”

Apesar das melhorias, o povoado espera mais avanços, como água encanada e saneamento básico. A água usada para beber e cozinhar, por exemplo, ainda é tirada de um rio que passa ali perto, o Galho Grande, que nos meses de seca tem o nível do leito mais baixo que o normal. E o posto de saúde mais próximo fica no centro da cidade, a 46 km de estrada de terra.

Quatro anos esta semana

O arrastão conservador exige um mutirão progressista contra os que tentam enterrar o futuro do país em um mar de lama cenográfico, de recorrência bem conhecida


Por Saul Leblom, no site Carta Maior





Arquivo
Um dia após o debate em que atribuiu à adversária a responsabilidade por uma campanha de calúnia e ódio, Aécio Neves comparou a disputa eleitoral contra o PT como um desafio ‘não menor’ do que acabar com a ditadura no Brasil .


Disse-o sem ruborizar.

O candidato que hoje une dos Marinhos aos Bornhausen, passando pela The Economist –a ‘revista dos exploradores’, como diz Lula, e os detentores da riqueza financeira local e internacional, emitiu o paralelismo em entrevista na sexta-feira, ao lado da nova entusiasta da ‘mudança’, a doce Marina Silva, que não pisco, nem tossiu.

Esse é o patamar afável em que as coisas se dão do lado do conservadorismo.
Mas a campanha do PT destila agressividade.

A uma semana do escrutínio de 26 de outubro, a sofreguidão ‘mudancista’ ainda poderá melhorar esse desempenho.

Com as pesquisas a indicar um desfecho incerto, é improvável o refluxo de uma escalada que na verdade começou em 2003 e nunca cessou.

Mas foi a partir de 2005 que ganharia torque inaudito.

O universo conservador então, já com um pé na rampa do Planalto embalado pelas denuncias do chamado mensalão, , tropeçou no prestígio de Lula; perdeu as eleições de 2006, como perderia novamente quatro anos depois, com a vitória de Dilma, em 2010.

As urnas pareciam impermeáveis à contrariedade das elites com o rumo de um país que, desde 2008 com maior nitidez, ousava colocar a questão do desenvolvimento social acima dos interesses plutocráticos e não hesitara em atravessar a linha vermelha ao instituir uma regulação soberana e industrializante para a exploração das maiores reservas de óleo descobertas no planeta nos últimos 30 anos, o pré-sal.

A partir do julgamento da AP 470, iniciado em 2 de agosto de 2012, que se estenderia até 13 de março de 2014, assiste-se então a mais longa, feroz e orquestrada campanha conservadora pela retomada do poder, que agora ingressa em sua derradeira e decisiva semana do assalto.

De lá para cá foram 25 meses e 28 dias de maciça, unilateral, asfixiante propaganda diuturna em rede nacional contra o PT, a sua história, suas principais lideranças, seu projeto, sua base social, seu legado ao país.

Antes, durante e depois da AP 470, o vocábulo ‘quadrilha’ foi o que de mais elegante se ouviu nesta página da história que mirava não propriamente os réus ou seus supostos delitos

O que se semeava ali –e vive agora a etapa da colheita -- era um degrau superior no ódio de classe modulado por um jogral ensurdecedor.

Togas, mídias, colunistas isentos, mercados financeiros, agencias de risco e forças da coalização conservadora liderada pelo PSDB foram meticulosamente mobilizadas a operar a plenos pulmões.

Cada dente da engrenagem se oferecia ao desfrute do outro, em encadeamento destinado a fomentar na sociedade a sensação de um consenso condenatório que já havia lavrado sua sentença muito antes do direito de defesa e ao largo das provas e autos do processo, como se viu.

O ritual de exceção observado até por analistas não alinhados ao PT incluiria uma jabuticaba jurídica. O domínio do fato, importado do Direito alemão, foi devidamente violado à luz de holofotes, por entre aplausos calorosos da mídia.

Não havia pejo, nem pudor; para servir aos fins antecipadamente definidos, valia qualquer meio.

Consumou-se assim o moinho destinado ao esmagamento político que levaria o escritor e jornalista Bernardo Kucinski a enxergar na marcha dos pelotões em passo de ganso, um politicídio focado no firme e desabrido propósito de abduzir o PT da vida política nacional (leia ‘O politicídio contra o PT’).


Na Copa do Mundo veio o sinal de guerra aberta.

No coro de uma elite assumidamente vulgar em seu grito de guerra dirigido à Presidenta Dilma, pulsava a rejeição à ideia de que a democracia consiste em incorporar direitos sociais para se tornar, de fato, um espaço de todos. Sobretudo, dos que nunca tiveram espaço nem voz na vida política nacional.

‘Hoje temos outro desafio, que não é menor do que aquele (de derrubar a ditadura), que é o de encerrar o governo que aí está, que perdeu a capacidade de governar pelo fracasso na economia, na gestão do Estado e no descompromisso com a ética”.

Nas palavras de Aécio, nesta 6ª feira, ao lado da sempre doce Marina Silva, condensa-se agora o espírito desse tecido social incompatível com os ideais que no século XVIII anunciavam a sociedade como comunidade de direitos, capaz de reconhecer em cada cidadão as mesmas prerrogativas desfrutadas pelo outro –inclusive e principalmente a de modificar a repartição da riqueza através de maiorias históricas construídas democraticamente para esse fim.

É esse o contexto da escalada que emoldurou o debate virulento do SBT, diante do qual a emissão conservadora se porta como um cronista enojado, sendo na verdade o esteio da crispação e do linchamento político que agora se condensam na fala algo deslumbrada de Aécio Neves.

A poderosa frente de interesses reunida ao longo dessa sedimentação é, paradoxalmente, restritiva ao debate das grandes questões do desenvolvimento, o que ajuda a entender o diagnóstico monotemático de seu candidato.

Em uma narrativa primária, infantilizada na descrição dos desafios brasileiros, mas palatável a uma classe média e alta que se informa pelo Pânico e pela Veja, Aécio afirma que os gargalos nacionais derivam de uma mesma origem: o PT.

A visão tosca tem seu apelo nas mentes atrofiadas pelo longo incentivo ao não pensar.

Deixe que Willian Bonner faça isso por você. Ele é pago para isso.

Aos mais exigentes, oferece-se Miriam Leitão, por exemplo.

Ou não terá sido ela que há 10 dias, em debate entre Armínio Fraga e Guido Mantega decretou o fim da crise mundial, com gesto soberbo de mão: ‘A crise acabou em 2009’, apartou um ministro da Fazenda que lhe dava aula sobre a gravidade e persistência dos efeitos do colapso global.

Em vão.

A dimensão internacional dos problemas brasileiros, seu impacto na correlação de forças que desafia a ação política para o desenvolvimento, inexiste no canto gregoriano do conservadorismo.

O problema do Brasil é o PT. O intervencionismo da Dilma.

Medicada com doses adicionais da poção que a originou, a desordem neoliberal arrasta a humanidade no sexto ano de arrocho e incerteza.

A cada sinal de dados encorajadores uma recaída espreita na esquina da mais longa e frágil convalescença de todas as crises vividas pelo capitalismo nos últimos 100 anos.

Mesmo nos EUA, onde os dados positivos adquirem maior nitidez, o subtexto da recuperação --inconteste no gestual da analista de O Globo—é feito de empregos de má qualidade, fastígio financeiro, estagnação na renda da classe média (hoje, cristalizada no mesmo patamar de 15 anos atrás) e drástico avanço da desigualdade.

Diferente dos analistas brasileiros, que esquece de consultar, a presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), Janet Yellen, disse na última nesta sexta-feira que o crescimento da desigualdade de renda e de patrimônio nos EUA a preocupa "demasiadamente". Está perto do seu nível mais dramático em um século, informou.

Yellen não ignora as intercorrências dessa espiral na trajetória de uma sociedade. Ao contrário do jogral conservador por aqui ela sacode a indiferença ao dizer: ‘Os norte-americanos deveriam perguntar se isso é compatível com os valores dos Estados Unidos’.

No mesmo dia em que a presidente do Fed arguia o futuro que o ajuste neoliberal está construindo, os mercados financeiros viviam um novo capítulo de abalos sísmicos.

Temores de uma terceira onda recessiva na Europa, agravados pelas evidências de uma longa estagnação nas economias ricas, da qual não se livra nem mesmo a poderosa Alemanha, que vê minguar suas importações e o crescimento (expectativa de expansão do PIB no último trimestre é de 0,3%), desencadearam uma explosão de ordens de venda nas bolsas de todo o planeta.

A deriva e a desordem do capitalismo internacional é tão grave que o seu principal bunker financeiro, o FMI, converge rapidamente para se transformar em defensor de incentivos fiscais e do investimento público, para mitigar o horizonte de um longo estancamento mundial da renda e do emprego.

Tudo aquilo que o governo petista tem feito pioneiramente desde 2008 –com resultados substantivos na oferta de emprego e redução da pobreza-- mas é tratado agora como ‘fracasso’ pelo candidato dos mercados.

A campanha eleitoral conservadora passa ao largo dessas miudezas que podem calcificar o século XXI brasileiro.

Seu diagnóstico guarda notável identidade com o gesto imperial da colunista do Globo: ‘A crise acabou’.

Ou, como prefere o ‘mudancismo’: ‘O problema do Brasil é o PT’.

O que se segue daí omite questões estruturais, abstrai conflitos, elide relações objetivas de causa e efeito, não enxerga o pano de fundo mundial. O risco desse diagnóstico leviano conduzir o país a soluções desastrosas é alto.

Por isso é necessário compensar a indigência intelectual e política daquilo que expressa a boca tosca de Aécio com uma oratória exaltada, carregada na tintura fantasiosa de um Brasil ‘devastado’.

O salvacionismo tucano impressiona durante algum tempo; em seguida satura.
Não há aderência racional entre o que se diz e o cotidiano da maioria da população: 78% dos eleitores consideram o governo Dilma ótimo, bom ou regular, diz o Datafolha.


Para contornar a decomposição desse produto de prazo de validade estreito, o discurso do ódio ideológico recusa ao eleitor o direito de refletir sobre o saldo das conquistas, equívocos e desafios acumulados nos últimos anos, de modo a formar o discernimento maduro das opções oferecidas ao passo seguinte brasileiro.

O arrastão conservador exige um mutirão progressista contra aqueles que tentam enterrar o futuro do país em um mar de lama cenográfico, de recorrência conhecida na história.

Nunca como desta vez a luta voto a voto teve tanto peso na disputa política.

São sete dias que valem por quatro anos.

Junção de tempos suficiente para que cada voto progressista lute para dobrar seu peso na urna de domingo.

À luta.