segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Os golpes de Estado no programa de Marina Silva


Democracia de 'alta intensidade' sem partidos fortes. Justiça social com Estado mínimo. O programa de Marina é uma bomba institucional.

Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior 


Por trás do cerco conservador à candidatura Dilma, e da fase alegre dos consensos em torno de Marina Silva – que Malafaia trincou com 4 ‘bordoadas’ de twiter, como ele próprio se jacta -- existe uma encruzilhada política.

É ela que está sendo escrutinada nos dias que correm.

O que as urnas de outubro vão decidir é se o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro será pautado por um salto revitalizador da democracia ou pela restauração neoliberal.

A identidade programática entre Marina e Aécio nesse aspecto é tal que o tucano já acusa a afilhada de Neca do Itaú de roubo de patente.

A patente de um governo deliberadamente subordinado à supremacia da lógica financeira.

Um governo que se propõe a ser um anexo do Banco Central independente.

E que não oculta a determinação de entregar ao poder financeiro a gestão autônoma da moeda, do juro e, por isso também, do câmbio – e em consequência, do poder real de compra dos salários.

Democracia participativa ou a ditadura da lógica financeira?

Interesse público ou apetites unilaterais?

Um Brasil mais justo ou a desigualdade como motor da economia?

A alavanca da produtividade ou o garrote-vil do arrocho salarial?

A coordenação democrática da economia ou a farra das privatizações?

Repactuar metas, concessões, salvaguardas e prazos com partidos, sindicatos, lideranças e movimentos sociais organizados; ou submetê-las à chibata do poder econômico local e global?

Não existe uma terceira via nessa disjuntiva.

Pode existir nas bibliotecas.

Ou nos devaneios marinados nos salões elegantes, onde o capital financeiro se veste de verde sustentável.

Mas o que distingue um devaneio ou uma biblioteca de um projeto político é justamente a construção das linhas de passagem concretas, aquelas que alteram a correlação de forças, criando um protagonista organizado, fiador de um futuro que não repita o passado.

É isso que desafia a história concreta do Brasil hoje.

motivos para votar em Dilma, 'contra tudo que está aí'





O cineasta brasileiro Jorge Furtado, em artigo reproduzido pela Revista Fórum, comemora a aparente retirada da "direita autêntica" - PSDB, DEM e PTB - da disputa eleitoral deste ano. Para ele, esse fenômeno vai garantir ao Brasil mais espaço para discutir os rumos certos para o crescimento. E colabora com o debate declarando o voto e os motivos: "Voto na Dilma e contra tudo isso que ainda está aí: a desigualdade social, o poder crescente do capital, a cobiça sobre nossos recursos naturais, o preconceito contra os homossexuais, a criminalização do aborto, o obscurantismo que impede avanços científicos, a criminalização da política, as palavras vazias, os salvadores da pátria", diz. Abaixo, o artigo na íntegra.


Por Jorge Furtado, na Revista Fórum

Se alguém me dissesse, em 2004 – quando o primeiro governo Lula sofria a oposição feroz de toda a mídia brasileira e tinha pouco ou nada para mostrar de resultados – que em dez anos o segundo turno da eleição presidencial seria disputado entre duas ex-ministras do governo Lula, uma pelo Partido dos Trabalhadores e uma pelo Partido Socialista Brasileiro, eu diria ao meu suposto interlocutor que a sua fé na democracia era um comovente delírio.

A provável ausência, pela primeira vez no segundo turno das eleições presidenciais, de candidatos da direita autêntica, do PSDB, do DEM e do PTB, é mais uma boa notícia que a democracia nos traz. Imagina-se que, vença quem vença, muitos dos derrotados voltarão correndo para os braços confortáveis do novo governo, esta é a má notícia.

Tenho familiares e bons amigos que vão votar na Marina e também no Aécio. Eu vou votar na Dilma. Acho que foi o Todorov quem disse (mais ou menos assim) que a democracia nos reúne para que a gente resolva qual é a melhor maneira de nos separar. Não sou nem nunca fui filiado a qualquer partido, já votei em vários, tenho amigos em alguns. Neste que é o maior período democrático da nossa história (25 anos, sete eleições consecutivas), o Brasil não parou de melhorar e não há nada que indique que vá parar de melhorar agora.

Votei no Lula, desde sempre até ajudar a elegê-lo em 2002, com o palpite de que um governo popular, o primeiro em 502 anos, talvez pudesse enfrentar com mais vigor o grande problema brasileiro: a desigualdade social. Achei que, talvez, substituindo a ideia de que o bolo deve primeiro crescer para depois ser divido pela ideia de incentivar o crescimento do país com melhor distribuição de farinha, ovos, manteiga, fogões, casas com luz elétrica, empregos e vagas nas escolas e nas universidades, finalmente poderíamos começar a nos livrar da nossa cruel e petrificada divisão entre a casa grande e a senzala. Meu palpite estava certo. A desigualdade brasileira continua grande e cruel mas está, finalmente, diminuindo.

Voto, ainda, primeiro contra a desigualdade social, ainda o maior problema do país, um dos mais injustos do planeta, em poucos lugares há uma diferença tão grande entre pobres e ricos. A elite brasileira (sim, ela existe, esta aí), fundada e perpetuada no escravismo, luta para manter seus privilégios a qualquer custo. Eles são donos dos bancos, das grandes construtoras, fábricas e empresas, das tevês, rádios, jornais e portais da internet e defendem ferozmente sua agradável posição. A única maneira de enfrentar seu enorme poder é no voto.

Voto contra o poder crescente do capital sobre as políticas públicas. Quem vive de rendas pensa sempre mais no centro da meta da inflação e menos nos níveis de emprego, mais na taxa dos juros e menos no poder aquisitivo dos salários. O poder do capital especulativo, rentista, é gigante, mora na casa dos bilhões de dólares.

Voto contra, muito contra, a autonomia do Banco Central, que tira do governante, eleito pelo nosso voto, o poder de guiar o desenvolvimento segundo critérios sociais, protegendo o país do ataque de especuladores e garantindo renda e empregos, e entrega este poder ao tal mercado, hereditário e eleito por si mesmo, sempre predador e zeloso em garantir a sua parte antes de lamentar os danos sociais causados por seus lucros. (Ver Espanha, Grécia, EUA, Finlândia, etc.)

Voto contra submeter os critérios de uso dos nossos recursos naturais não renováveis, como o petróleo, ao interesse de grandes empresas estrangeiras. O petróleo brasileiro e seu destino é o grande assunto não mencionado nas campanhas eleitorais.

Os ataques contra a Petrobras, que acontecem invariavelmente às vésperas de cada eleição, atendem interesses das grandes empresas petroleiras, especialmente as americanas, que querem a volta do velho e bom sistema de concessões na exploração dos campos de petróleo, sistema que, na opinião delas, deveria ser extensivo às reservas do pré-sal. Aqui o interesse chega na casa do trilhão. Garantir que o uso da riqueza proveniente da exploração de nossos recursos não-renováveis tenha critérios sociais, definidos por governantes eleitos, me parece uma ideia excelente da qual o país não deveria abrir mão.

Voto contra o poder crescente das religiões sobre a vida civil. Respeito inteiramente a fé e a religião de cada um, gosto de muitos aspectos de várias religiões, sei do importante trabalho social de várias igrejas, mas não aceito o uso de argumentos ou critérios religiosos na administração pública. Mesmo para os que professam alguma fé religiosa a divisão entre os poderes da terra e do céu deveria ser clara. 

Diz a Bíblia, em Eclesiástico, XV, 14: “Deus criou o homem e o entregou ao poder de sua própria decisão”. (Esta é a versão grega, a versão latina fala em “de sua própria inclinação” ou “ao seu próprio juízo”.) Erasmo faz uma boa síntese desta ideia: “Deus criou o livre-arbítrio”. Ele, se nos criou a sua imagem e semelhança e criou também as árvores, haveria de imaginar que, criadores como ele, criaríamos o serrote, e com ele cadeiras, mesas e casas, e ainda, Deus queira!, a ciência que nos permita usar com sabedoria os recursos naturais e viver bem, com saúde. O poder crescente das igrejas, com suas tevês e bancadas no congresso, deve ser contido por um estado laico.

Voto contra o preconceito contra os homossexuais. O estado não tem nada a ver com o desejo dos indivíduos. Ninguém (seriamente) está falando que o sacramento religioso do casamento, em qualquer igreja, deva ser definido por políticas públicas, mas os direitos e deveres sociais devem ser iguais para todos, ponto. Os preconceituosos e mistificadores, que vendem a cura gay ou bradam sua lucrativa intolerância contra os homossexuais, devem ser combatidos sem vacilação ou mensagens dúbias.

Voto contra a criminalização do aborto. A hipocrisia brasileira concede às filhas da elite o direito ao aborto assistido por bons médicos, em boas condições de higiene, e deixa para as filhas dos pobres os métodos cruéis e o risco de vida, milhares de meninas pobres morrem de abortos clandestinos todos os anos. A mulher deve ter direito ao seu corpo, independente de vontades do estado ou de dogmas religiosos.

Voto contra o obscurantismo que impede avanços científicos. Há quem se compadeça com os embriões que serão jogados no lixo das clínicas de fertilização e ignore o sofrimento de milhares de seres humanos, portadores de doenças graves como a distrofia muscular, a diabetes, a esclerose, o infarto, o Alzheimer, o mal de Parkinson e muitas outras, cuja esperança de cura ou melhor qualidade de vida está na pesquisa com as células tronco.

Voto contra palavras vazias. Nossa era da mídia transformou a oralidade num valor em si, esquecendo que há canalhas articulados e bem falantes e pessoas de bem e muito competentes que são de pouca conversa, ou até mesmo mudas. Tzvetan Todorov: “A democracia é constantemente ameaçada pela demagogia, o bem-falante pode obter a convicção (e o voto) da maioria, em detrimento de um conselheiro mais razoável, porém menos eloquente”. (1) Há quem diga de tudo e também o seu oposto, dependendo do público ouvinte a quem se pretende agradar, há quem decore frases feitas repetíveis em qualquer ocasião, há quem não fale coisa com coisa. Prefiro julgar os governantes e aspirantes a cargos públicos menos por suas palavras e mais por seus atos, seus compromissos e sua capacidade de trabalho em equipe, ninguém governa sozinho.

Voto contra os salvadores da pátria. Pelo menos em duas ocasiões o Brasil apostou em candidatos de si mesmos, filiados a partidos nanicos, sem base parlamentar, surfando numa repentina notoriedade inflada pela mídia e alimentada pelo discurso “contra a política”, prometendo varrer a corrupção e as “velhas raposas”. No primeiro caso, a aventura personalista de Jânio Quadros acabou num golpe militar e numa ditadura que durou 25 anos. No segundo, a aventura personalista de Fernando Collor, sem base parlamentar e passada a euforia inicial, terminou em impeachment, bem antes do fim de seu mandato.

Voto na Dilma e contra tudo isso que ainda está aí: a desigualdade social, o poder crescente do capital, a cobiça sobre nossos recursos naturais, o preconceito contra os homossexuais, a criminalização do aborto, o obscurantismo que impede avanços científicos, a criminalização da política, as palavras vazias, os salvadores da pátria. Com a direita autêntica fora do jogo podemos, sem grandes riscos de voltar ao passado, debater o melhor caminho para seguir avançando. Ponto para a democracia.

(1) Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, tradução Joana Angelica DÁvila Melo, Companhia das Letras, 2012.

O que saber antes de votar em Dilma



Vamos falar de corrupção ? Que tal tratar do jatinho sem dono ?​

Do Seja Dita a Verdade: extraído do Conversa Afiada


1. A corrupção e o PT




2. O aparelhamento do Estado pelo PT



3. O absurdo que o PT fez com a economia do país




4. Os planos do PT para se perpetuar no poder



5. O assistencialismo do PT




6. A censura e o PT


Clique na imagem para assistir


O PT quer calar a imprensa?


Os petistas querem amordaçar a liberdade de expressão?


Esse não é um tema apenas nacional, é discutido no mundo todo.


Sobre o assunto da regulação da mídia e o PT, temos aqui um vídeo curtinho que todo brasileiro deveria assistir

Proposta de Marina é autofágica e inviável

 

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Para mestre da Ciência Política, cada proposta da candidata do PSB serve para um país diferente. "Como é possível desprezar o Pré-Sal?"'

Há meio século que o professor Wanderley Guilherme dos Santos tornou-se uma das grandes referências para o debate político brasileiro. Wanderley era um estudante de 27 anos quando escreveu “Quem dará o golpe no Brasil,” texto que antecipou, em 1962, os desdobramento do conflito que levaria ao golpe de 1964.

Em 1998, publicou “Décadas de Espanto e uma Apologia Democrática,” livro um essencial para o entendimento da Era Vargas e dos anos FHC — ali explica que a luta permanente contra a CLT, a Consolidação das Leis Trabalhistas, é a única causa que unificou o conservadorismo brasileiro depois do Estado Novo. Aos 79 anos, professor aposentado de Teoria Política na UFRJ, ele deu a seguinte entrevista ao Brasil 247:

PERGUNTA Em função das pesquisas, muita gente diz que Aécio é carta fora do baralho. O senhor concorda?

RESPOSTA – Se as eleições estiverem desproporcional e irreversivelmente contaminadas pela emoção, o resultado torna-se racionalmente imprevisível. Admitindo uma linha de racionalidade, e assistindo aos programas televisivos e entrevistas, observo que, para um eleitor anti-governo, ou anti-petista, de um modo geral, o candidato mais consistente, cujos planos são realizáveis, é Aecio Neves. Os preços sociais, de identidade nacional e de comprometimento de futuro são também relativamente previsíveis e cabe ao eleitor decidir que composto de bens e males ele prefere.

PERGUNTA — E a campanha de Marina Silva?

RESPOSTA — É diferente no caso da candidata Marina Silva que propaga a tese de que os problemas do país decorrem da competição entre o PT e o PSDB, cuja superação pela vitória de uma terceira sigla teria potencial para, por sí só, encaminhar de forma benéfica todas as soluções que a competição tradicional impede. Esse equívoco de diagnóstico (se é que a candidata e seus assessores acreditam de verdade nele) permite tratar os problemas de forma fatiada como se a política adotada em um setor não repercutisse em outras áreas relevantes. São propostas, cada uma, para um país diferente.

PERGUNTAPor exemplo…

RESPOSTA — Como é possível menosprezar a economia política do pré-sal, manter os empregos em toda a cadeia produtiva ativada pela Petrobrás e investir fortemente na educação e na saúde? Da hegemonia da economia do etanol? Da energia eólica e solar? Em que década do século XXI? Como reduzir o gigantesco esforço que vem sendo realizado para garantir à sociedade uma infraestrutura material moderna e, ao mesmo tempo, dar à agricultura, em particular à agricultura familiar, estradas, ferrovias, silos e crédito suficientes para estimular uma exportação competitiva e comida barata no bolsa amilia?

Como obrigar o sistema de governo (caixas e bancos de governos estaduais) a competir com os juros de mercado do sistema financeiro privado e manter o programa minha casa, minha vida? Como preparar o Brasil para a complexa competição derivada da revolução tecnológica em curso (de onde as prioridades do investimento em universidades, em pesquisa tecnológica e programas como o Pronatec)?

PERGUNTA O senhor está falando de uma cascata de ideias improvisadas…

RESPOSTA — Não se trata apenas de que as ofertas compõem um programa obscurantista, creacionista, mas de que a proposta, tudo somado, é auto-fágica, inviável. Por isso não creio que as propostas da Rede, em sua versão PSB, sejam sérias. E por isso acredito que se o fator emocional retomar seu nível tradicional e relativo em competições políticas, o candidato Aecio Neves se afirmará como o representante consistente da facção conservadora e não seria uma carta fora do baralho. Mas alguns eventos não repetitíveis (o acidente com Eduardo Campos) e o oportunismo seletivo da mídia podem dificultar a competição em seus níveis históricos de emoção e racionalidade.

PERGUNTA - O senhor vê algum erro na campanha de Dilma Rousseff?

RESPOSTA — Faltam à campanha de Dilma, a meu ver, tradução de obras em realidades humanas e didática eleitora. Exemplos. Eu começaria mostrando o valor do bolsa família e de onde ele vem: tudo tem início na agricultura, que precisa de crédito, garantia e investimento. Passa pelo transporte em rodovias, ferrovias, portos, silos e energia para chegar aos brasileiros sob forma de bens de consumo, que só podem ser consumidos porque os salários tem sido defendidos no poder de compra.

É por isso, e várias outras coisas, que o governo está fazendo isto, aquilo e aquilo outro. Outro exemplo: de onde vem o luz para todos? Dos investimentos em energia, do petróleo para alimentar o transporte, das redes de distribuição e é isso que o governo vem fazendo assim e assado. Ir do Pronatec para trás até o problema da inovação tecnológica. No programa Minha casa, minha vida, mostrar a viagem de indústrias, créditos, estradas, fábricas de cimento, siderurgia, tudo sintetizado em uma chave. Em suma é necessário revelar o emprego, o salário e o tipo e tamanho das ações do governo para que esses bens mais visíveis estejam presentes.

PERGUNTAEm geral, o senhor vê muito ilusionismo nas campanhas pela TV?

RESPOSTA — Programas que proponham mudanças em um setor sem dizer o que vai acontecer nos outros e no fim da cadeia produtiva e nas condições de bem estar da população são programas enganadores ou de quem não conhece os problemas que um governo tem presente em sua agenda diária.

Acho até, que a Dilma começa o dia tomando conhecimento de todos os problemas que exigem tratamento, de onde não poder deixar de conhece-los e reconhece-los, e que, aliás, são em número e de complexidade bem maiores do que os que cabe em discursos, mas não na vida. É didaticamente importante mostrar o tempo de maturação das políticas: sabendo que há um problema de cabeamento ou de transporte, do estudo e formulação de política ao investimento e deste à finalização da obra existe um tempo físico que não se submete a voluntarismos políticos.

Tuneis urbanos levam tempo para serem construídos, usinas de energia precisam anos, hospitais necessitam de engenharia, pessoal humano e instrumentos tecnológicos. Não existe varinha mágica que realize tudo isso porque queremos o bem para todos no prazo curto. Especialmente porque esses problemas foram negligenciados no passado é que custam muito tempo e recursos para soluciona-los no presente.

PERGUNTAO senhor lembra de outro pleito onde a mídia teve um comportamento tão parcial?

RESPOSTA –O jornalismo político brasileiro se aproveita exaustivamente das condições institucionais vigentes. Umas são de extrema relevância para a democracia – a liberdade de opinião e de expressar preferência política, por exemplo – outras deixam os cidadãos desarmados face a crimes catalogados nos códigos mas de julgamento e reparação ineficazes. Esse é um dado a ser levado em conta nos cálculos eleitorais, não para formar hipóteses sobre o que aconteceria caso o mundo fosse diferente. Não se dispôs a alterar as regras antes. Agora é contar com elas.

PERGUNTA - O senhor foi um dos primeiros a denunciar o julgamento da AP 470 como um tribunal de exceção. Considera que o julgamento está tendo um peso na eleição?

RESPOSTA — Penso que a Ação Penal 470 tem influído no processo eleitoral mais pela difusão da cultura do medo do que pela pedagogia cívica. Pelas pesquisas verifica-se, em todo o país, que o eleitor continua a votar conforme sua preferência, independente das ameaças de juízes e tribunais, inclusive em candidatos sub-judice. Mas as campanhas têm sido medíocres, enfatizando aspectos não muito centrais em projetos de governo (no caso de candidaturas a executivos) ou em legislações específicas (caso dos candidatos a postos legislativos).

Deu-se o efeito de criminalização ou, quando em mal menor, a suspeição da atividade política, com os candidatos buscando persuadir a população do que não são ou seriam mais gastadores, predadores, etc. Isso em geral, sem prejuízo das exceções e das candidaturas da carochinha que prometem de tudo porque, no fundo, sabem que não ganharão nada.

Dilma ainda pode ganhar?











Por Miguel do Rosário, No Cafézinho


Se conselho valesse grande coisa, muito vagabundo estaria rico. Mesmo assim, darei um aos amigos leitores e às queridas leitoras, que estão preocupados com a possibilidade de um novo Collor ganhar as eleições, interrompendo o processo de avanço sócio-econômico que estamos vivendo. É o mesmo conselho que Lula deu a Evo Morales, num dos momentos mais difíceis vividos pelo presidente da Bolívia, há alguns anos: “paciência, paciência, paciência”.

Eu acrescentaria outra palavra: serenidade.

Não acho que Marina Silva ganhe as eleições. O povo brasileiro, num segundo turno, não irá embarcar numa aventura que tem cheiro, cara e sabor de plano B da direita retrógrada para reassumir o poder.

Mas quem pode prever o que virá?

Nesses tempos de redes sociais, tudo pode acontecer. O “zeitgeist”, o espírito do tempo, tem andado um tanto arisco e imprevisível.

Tocqueville já ensinava, na primeira metade do século XIX, que eleições são sempre um momento de crise nacional, porque todas as forças sociais, econômicas, políticas, entram em estado de tensão máxima.

Num país tão complexo como o Brasil, com tantos interesses contraditórios em jogo, com tantas disparidades regionais, econômicas e sociais, a tensão chega às vezes a nível insuportável.

Mas isso é democracia, uma conquista da nossa sociedade. E o que estamos assistindo é a eclosão do que existe de mais emocionante num regime democrático: o entrechoque de ideias e projetos.

Até mesmo a “despolitização” da maioria da população, em especial da juventude, tão denunciada por todos, inclusive por este blog, é um conceito relativo, porque, em verdade, somente a experiência ensina.

Na introdução de sua Crítica da Razão Pura, Kant ensina que “nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela.”

Isso vale para tudo, e logo também para nossa juventude e para o processo político. Se a história de nossa democracia quiser que ela – a juventude – experimente um governo de Marina Silva, para que possa entender melhor os erros e acertos do PT, então será isso que acontecerá.

A despolitização, portanto, seria apenas um outro nome para o início de um processo massivo de politização dos jovens e da nova classe média.

O Brasil não vai acabar com a vitória de Marina.

Nem acho que haverá o “desmantelamento” de todas as nossas conquistas. Pode haver retrocessos, mas não brutais. Não exatamente por causa de Marina, em quem não confio, mas porque a população hoje tem mais voz, através das redes sociais, tem mais força de rua, após as “jornadas de junho”, e o Congresso Nacional saberia impor resistência importante a qualquer loucura da presidente.

O governo Marina deverá exercer um neoliberalismo moderado. A mídia tucana já começou a pressionar Marina Silva, para ela governar em aliança com o PSDB. De fato, como o embate no segundo turno será sangrento, haverá pressão insuportável para que o PSB assuma compromissos políticos com o PSDB, o partido mais estruturado e orgânico da oposição.

Mas não se pode esquecer que o esvaziamento de Aécio, o candidato do PSDB, reflete justamente a hostilidade da população contra o neoliberalismo não disfarçado e radical deste partido. Marina pagará um preço altíssimo se entregar fatias do governo em mãos tucanas. Ou seja, fortalecerá o PT, que por sua vez voltará a se aproximar da juventude.

A principal força de Marina, o que a torna realmente uma ameaça à eleição de Dilma, é a adesão a ela de uma significativa parcela da esquerda juvenil, não-partidária. Uma juventude que, a bem da verdade, ainda nem sabe que é de esquerda. Mas é.

O maior problema de Dilma se encontra em sua baixa aprovação numa juventude que nunca viveu sob outro governo que não o PT. Não tem como fazer a comparação, portanto, entre o atual estado de coisas e o inferno tucano.

A juventude pensa no futuro, e por isso a campanha de Dilma, se quiser conquistar ao menos uma parcela deste eleitorado, terá que falar mais do que pretende fazer daqui para frente do que apenas relatar o que já fez.

As realizações do governo já deveriam ser de conhecimento público. É absurdo que o Brasil tenha tido que esperar o início do horário eleitoral para conhecê-las. O horário político deveria ser usado para focar nas propostas para a próxima gestão, e não para fazer um balanço do passado.

De qualquer forma, duvido que um eventual governo Marina tenha força para “deixar o pré-sal em segundo plano”, conforme prometeu a ex-petista, embora seja absolutamente aterrorizante que uma candidata com chances de ganhar as eleições fale uma coisa dessas.

O Brasil, para se desenvolver, precisa continuar construindo hidrelétricas. Dezenas ou mesmo centenas delas. Algumas usinas nucleares a mais também seriam bem-vindas. Dilma tem consciência disso e está fazendo várias hidrelétricas e tem um bom programa nuclear, sem esquecer de nenhuma alternativa: eólica, biomassa, solar, etc.

Com Marina, esses projetos correriam grave risco. Seriam, no mínimo, atrasados em quatro anos.

O maior perigo, num governo Marina, é a instabilidade decorrente de um governo fraco e ideologicamente confuso, feito dessa mistura esquisitíssima entre o ambientalismo radical e o neoliberalismo do banco Itaú, do Giannetti e do André Lara Resende, economistas ultratucanos.

Lara Resende, não devemos esquecer, foi o economista que convenceu Collor a confiscar a poupança dos brasileiros.

A blogosfera também não irá acabar, conforme acusam nossos adversários, e temem alguns de nossos amigos. Durante as eras Lula e Dilma, o Cafezinho viveu sem dinheiro de governo ou partido e poderá continuar assim num governo Marina. Nenhuma diferença. Continuaremos crescendo e nos fortalecendo. Na verdade, talvez seja até mais fácil obter anúncios privados e públicos num governo Marina, porque ninguém poderá mais nos acusar de “governistas” ou “chapa-branca”, esse estigma que a grande imprensa colou nos blogs como se fosse crime político defender um governo.

Quanto aos blogs que recebem anúncio estatal, eu quero ver cair a máscara democrática da oposição. Os governos do PT introduziram uma mídia técnica que, ao cabo, beneficiou muito mais os veículos de direita. Eu sempre critiquei um parâmetro que se revelou totalmente desconectado do nosso contexto histórico, e na contramão da política do governo de promover a desconcentração de renda. Nesse sentido, não foi democrático. Ninguém pode negar, contudo, que tenha sido um critério absolutamente apartidário e técnico. Por isso será instrutivo assistir ao que fará a oposição no poder. Será republicana e generosa como foi o PT, ou cortará até mesmo as migalhinhas que iam para dois ou três blogs, apenas porque não gostam deles?

Bem, a vitória de Marina significará poder para Roberto Freire, supra-sumo da hidrofobia e do rancor partidário, então não tenho esperanças de nenhuma magnanimidade por parte do governo.

Não sou do PT, não tenho sequer nenhum amigo mais próximo trabalhando no governo federal, nem mesmo parente, que eu me lembre, então minha vida continuará rigorosamente a mesma. O blog tem quase 500 assinantes e continuarei trabalhando duro para prosseguir colhendo mais assinaturas e sobreviver. Aliás, se quiser assinar, clique aqui.

Mas também já entendi que o ambiente de criminalização da política nos força, sobretudo jornalistas e comunicadores, a uma postura reativa e pusilânime, como que tentando provar a todo momento que não somos partidários. Eu vivo numa democracia e defendo quem eu quiser, da maneira que eu quiser, e acho um absurdo que alguém seja discriminado ou ofendido por votar ou defender um governo ou partido, como acontece tantas vezes no Brasil, onde nossa mídia vive a lançar calúnias contra os blogs apenas porque eles não são hipócritas e demonstram, transparentemente, que tem lado.

Ter lado é bom, e talvez um dia os jornalistas da grande imprensa, num futuro distante, desfrutem da liberdade de expressão que eles tanto fingem defender para o país, mas que seus patrões lhes proíbem. Espero que eles conquistem, algum dia, a maravilhosa liberdade política de defender um candidato, um governo, um partido, sem que isso implique no desprestígio de seu trabalho e de sua seriedade profissional.

*

Ao longo da minha carreira, sofri apenas três processos: um do Ali Kamel, que perdi em primeira instância, mas com o valor reduzido de R$ 41 mil para R$ 15 mil, e que espero vencer na segunda instância ou no STF; outro de um marketeiro do finado Eduardo Campos (esqueci o nome do sujeito), uma besteira insossa repleto de asserções incrivelmente reacionárias, que tenho certeza que irei ganhar, em primeira instância ou no recurso; e outro de uns servidores de uma estatal paulista, que eu venci absolutamente (já transitou em julgado, eles não recorreram).

Neste sentido, as coisas estão sob controle. Estou em paz com a Justiça brasileira.

Também não acho que os blogs serão “massacrados” num governo Marina. Por que eles fariam isso? Qualquer ataque aos blogs só lhes dariam mais cartaz.

Ao contrário, os blogs ganhariam importância política, porque para eles convergiriam as forças de esquerda derrotadas: sindicais, partidárias e sociais.

Não é por interesse pessoal, portanto, que defendo um voto em Dilma Rousseff. Nem por algum tipo de visão desesperada de mundo, segundo a qual o Brasil iria pelos ares se o PT fosse alijado do poder.

Eu defendo o voto em Dilma e faço o bom combate político ao projeto de Marina Silva porque acho a presidenta, pese todos os seus defeitos, representa o projeto que tem mais condições de terminar as grandes obras de infra-estrutura e mobilidade urbana que estão sendo conduzidas no Brasil.

Tenho uma série de críticas políticas ao governo, aos partidos no poder, à presidenta. Elas são públicas porque eu já as repeti várias vezes aqui no blog, e podem ser resumidas numa só: faltou debate político, faltou comunicação. Um governo e uma presidenta nunca podem fugir do debate. Tem corrupção no Brasil? Tem. Há problemas graves na saúde e na educação? Há. As cidades estão à beira de um colapso urbanístico? Estão. O governo deveria ser o primeiro a admitir isso, na TV, em entrevistas, e convocar a população a participar do debate de como superar esses problemas. Pintar um mundo cor de rosa foi o grande erro do governo. Isso faz as pessoas se sentirem enganadas. As pessoas são seduzidas pela sinceridade, pela informação, pelo debate onde elas mesmos participam, não pela propaganda. O mundo nunca será cor de rosa.

Além disso, no mundo contemporâneo, e nas circunstâncias específicas do nosso país, que tem a mídia mais concentrada, mais reacionária e mais golpista de todo o mundo democrático, era obrigação do governo ter promovido um grande debate nacional sobre o nosso sistema de informação.

E o que tivemos? Paulo Bernardo, de um lado. Helena Chagas, de outro.

Se não tinham segurança de que a correlação de forças permitiria propor uma regulamentação constitucional dos meios de comunicação, poderiam ao menos elaborar políticas de fomento à criação de centros independentes de produção de conteúdo. O tamanho do Brasil – e a gravidade do problema – pedia projetos de comunicação da envergadura de um Pronatec. Alguma coisa para criar dezenas de milhares de espaços digitais, que refletissem a incrível e maravilhosa diversidade do povo brasileiro, e que constituíssem uma força orgânica, autônoma, sustentável, que pudesse enfrentar os períodos em que a esquerda passasse para a oposição. Não fizeram nada, e agora, se a direita voltar ao poder, teremos que construir uma resistência praticamente do zero.

Só que esses erros, e outros, não são suficientes, nem de longe, para eu desistir do projeto. Os acertos foram imensos. Sigo apoiando a eleição da nossa Dilminha, guerreira de coração valente, uma das pessoas mais honradas que já ocuparam o seu cargo, com otimismo e esperança de vitória!

Até porque, como diziam os anarquistas do século XIX, que sacrificavam suas vidas por lutas às vezes completamente utópicas: a única luta que se perde é a que se abandona!


domingo, 31 de agosto de 2014

Marina se íguala a Aécio para dar um tiro do coração da Petrobras






Por Fernando Brito, noTijolaço


O tiro que, há 60 anos, Getúlio Vargas deu no próprio coração para salvar as riquezas nacionais parece pronto a ser disparado, agora contra elas.

Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma, disse Vargas, ao explicar as razões de seu gesto.

O ódio à ideia de que o Brasil venha a ser independente ressurge, agora que mal começa a jorrar o tesouro de petróleo da camada do pré-sal.

Pelas mãos dos inimigos de sempre da soberania e do progresso nacional mas, também, mal disfarçado numa capa primária de “ecologia” hipócrita, que encapuza os verdadeiros motivos: hoje como sempre ter o apoio político de um sistema de comunicação antinacional.

Janio de Freitas, em artigo primoroso na Folha de S. Paulo, neste e em outros temas, expõe como são siamesas as de Aécio Neves as propostas de Marina Silva no seu “programa de Governo” – neste momento em revisão pelo senhor Silas Malafaia.



Por Janio de Freitas, na Folha de São Paulo

O catatau dado como programa de governo de Marina Silva e do PSB, mas que contraria tudo o que PSB defendeu até hoje, leva a uma originalidade mais do que eleitoral: na disputa pela Presidência, ou há duas Marinas Silvas ou há dois Aécios Neves. As propostas definidoras dos respectivos governos não têm diferença, dando aos dois uma só identidade. O que exigiu dos dois candidatos iguais movimentos: contra as posições refletidas nas críticas anteriores de Marina e contra a representação do avô Tancredo Neves invocada por Aécio.

Ao justificar sua proposta para a Petrobras, assunto da moda, diz Marina: “Temos que sair da Idade do Petróleo. Não é por faltar petróleo, é porque já estamos encontrando outras fontes de energia”. Por isso, o programa de Marina informa que, se eleita, ela fará reduzir a exploração de petróleo do pré-sal.

Reduzir o pré-sal e atingir a Petrobras no coração são a mesma coisa. Sustar o retorno do investimento astronômico feito no pré-sal já seria destrutivo. Há mais, porém. Concessões e contratos impedem a interferência na produção das empresas estrangeiras no pré-sal. Logo, a tal redução recairia toda na Petrobras, com efeito devastador sobre ela e em benefício para as estrangeiras.

Marina Silva demonstra ignorar o que é a Idade do Petróleo, que lhe parece restringir-se à energia. Hoje o petróleo está, e estará cada vez mais, por muito tempo, na liderança das matérias-primas mais usadas no mundo. Os seus derivados estão na indústria dos plásticos que nos inundam a vida, na produção química que vai das tintas aos alimentos (pelos fertilizantes), na indústria farmacêutica e na de cosméticos, na pavimentação, nos tecidos, enfim, parte do homem atual é de petróleo. Apesar de Marina da Silva. Cuja proposta para o petróleo significaria, em última instância, a carência e importação do que o Brasil possui.

A Petrobras é o tema predileto de Aécio Neves nos últimos meses. Não em ataque a possíveis atos e autores de corrupção na empresa, mas à empresa, sem diferenciação. Que seja por distraída simplificação, vá lá. Mas, além do que está implícito na candidatura pelo PSDB, Aécio Neves tem como ideólogo, já anunciado para principal figura do eventual ministerial, Armínio Fraga — consagrado como especialista em aplicações financeiras, privatista absoluto e presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique, ou seja, quando da pretensão de privatizar a Petrobras.

A propósito, no debate pela TV Bandeirantes, Dilma Rousseff citou a tentativa de mudança do nome Petrobras para Petrobrax, no governo Fernando Henrique, e atribuiu-a à conveniência de pronúncia no exterior. Assim foi, de fato, a ridícula explicação dada por Philipe Reichstuhl, então presidente da empresa. Mas quem pronuncia o S até no nome do país, com States, não teme o S de Petrobras. A mudança era uma providência preparatória. Destinava-se a retirar antes de tudo, por seu potencial gerador de reações à desnacionalização, a carga sentimental ou cívica assinalada no sufixo “bras”.

Ainda a propósito de Petrobras, e oportuno também pelo agosto de Getúlio, no vol. “Agosto – 1954″ da trilogia “A Era Vargas”, em edição agora enriquecida pelo jornalista José Augusto Ribeiro, está um episódio tão singelo quanto sugestivo. Incomodado com o uso feroz da TV Tupi por Carlos Lacerda, o general Mozart Dornelles, da Casa Civil da Presidência, foi conversar a respeito com Assis Chateaubriand, dono da emissora. Resposta ouvida pelo general (pai do hoje senador e candidato a vice no Rio, Francisco Dornelles): se Getúlio desistisse da Petrobras, em criação na época, o uso das tevês passaria de Lacerda para quem o presidente indicasse. De lá para cá, os diálogos em torno da Petrobras mudaram; sua finalidade, nem tanto.

De volta aos projetos de governo, Marina e Aécio desejam uma posição brasileira que, por si só, expressa toda uma política exterior. Pretendem o esvaziamento do empenho na consolidação do Mercosul, passando à prática de acordos bilaterais. Como os Estados Unidos há anos pressionam para que seja a política geral da América do Sul e, em especial, a do Brasil.

Em política interna, tudo se define, igualmente para ambos, em dois segmentos que condicionam toda a administração federal e seus efeitos na sociedade. Um, é o Banco Central dito independente; outro, é a prioridade absoluta à inflação mínima (com essa intenção, mas sem o êxito desejado, Armínio Fraga chegou a elevar os juros a 45% em 1999) e contenção de gastos para obter o chamado superavit primário elevado. É prioridade já conhecida no Brasil.

Pelo visto, Marina e Aécio disputam para ver quem dos dois, se eleito, fará o que o derrotado deseja.

sábado, 30 de agosto de 2014

Ousar e vencer ou entregar o Brasil aos mercados passivamente?





Ao aluvião de malafaias, rentistas e insatisfeitos bem intencionados não basta contrapor conquistas incorporadas. É preciso sinalizar um símbolo da repactuação.




Por Saul Leblon, na Carta Maior

Silas Malafaia, pastor e radialista evangélico, de larga audiência no Rio de Janeiro, é um símbolo exclamativo daquilo que se convenciona chamar um estereótipo.

Certas características nele são tão acentuadas que mais se assemelha a um personagem de desenho animado.

Mas Malafaia é de verdade.

E personifica um dos mais buliçosos marcadores do extremismo conservador nos ciclos eleitorais brasileiros.

Malafaia é velho conhecido no ramo do palanque de rebanho.

Com a retórica adestrada na radiofonia da fé, o pastor evangélico se notabiliza como uma ferramenta implacável no exorcismo de gays e lésbicas; na condenação do aborto e da educação sexual; na demonização de petistas, esquerdistas e libertários em geral.

Não necessariamente nessa ordem, mas com essa vivacidade. Sempre em nome da pureza da sociedade, dos costumes e do que mais se engata a esse comboio.

Em 2012, já descendo a ladeira do seu moderado escrúpulo, na largada do 2º turno em São Paulo quando foi derrotado por Fernando Haddad, Serra importou o animador cirúrgico para reforçar a musculatura na hora do vale tudo na disputa.
Silas Malafaia desembarcou na cidade festejado então em manchete graúda do caderno de política da'Folha de SP', em 10/10/2012.

Assim:

"Líder evangélico diz que vai 'arrebentar' candidato petista -- Silas Malafaia afirma que Haddad apoia ativistas gay".

Em entrevista ao diário dos Frias, de imoderados pendores tucanos, o bispo disse que Serra agradeceu o apoio recebido no primeiro turno, quando fez um vídeo em que pedia votos ao candidato do PSDB e ligava Haddad ao ‘kit anti-homofobia’.

Carimbado de "kit gay" pelos evangélicos, o material consistia de uma cartilha contra a homofobia encomendada pelo Ministério da Educação em 2011, para ser distribuída nas escolas na gestão Haddad.

A pressão da mídia e evangélicos obrigou o governo a recuar. "O Haddad já está marcado pelos evangélicos como o candidato do 'kit gay'. Não vamos dar moleza a ele", fuzilou Malafaia, após o encontro com Serra.

Arrebentar a tolerância, de um lado, para resgatar o voto da ‘pureza’ de outro; esse, o fundamento regressivo representado pela restauração do filtro religioso na política.

A especialidade de Silas Malafaia está prestes a ser direcionado agora no apoio à candidata do PSB.

O bispo anunciou que apoiará Marina Silva no provável 2º turno das eleições presidenciais deste ano, embora a tenha trocado por Serra, em 2010, quando Marina sugeriu um plebiscito sobre o aborto.

Malafaia é um estereótipo.

Como qualquer marcador, cola onde encontra aderência.

A adesão a Marina foi revelada em blog de uma revista semanal, ela também um marcador sanguíneo dos pecados incluídos na lista de Malafaia.

No 1º escrutínio, ’para marcar posição’, informa a revista, o voto do influente bispo terá outro dono: o pastor e presidenciável Everaldo, do PSC, -como ele e Marina, também da Assembleia de Deus, e cujo bordão eleitoral é ‘vou privatizar tudo’.

Na decisão para valer, Malafaia vai de Marina.

Outro conhecido político e pastor evangélico, o deputado federal Marco Feliciano (PSC), envolvido recentemente em acusações de homofobia e rompido com o governo pela falta de solidariedade dos petistas, anuncia a mesma dobradinha.

Porém, com uma ênfase mais representativa dos dias que correm: ‘no segundo turno, qualquer um, menos o PT’, proclama Feliciano.

O bordão é o mesmo empunhado pelos operadores de outra confissão de fé arrebatada: a do mercado financeiro, que aspira à multiplicação bíblica do pão e do peixe na forma dinheiro.

O vertedouro desse sortido aluvião de intolerância e cobiça é a proposta de higienizar ‘a velha política’, apresentada ora como uma instância devassa de uma sociedade pia; ora como uma interferência suja na pureza lógica do maquinismo rentista.

A purgação desses pecados uiva na fogueira programática mais festejada da praça nesse momento. Das labaredas emana o espírito santo de um Banco Central autônomo ; de um mercado financeiro independente e de um moralismo a salvo dos incréus.

Todos abrigados da ingerência do Estado belzebu e das liberdades democráticas e individuais.

O tucano Aécio Neves, no debate da Bandeirantes, ao criticar Marina Silva, que se autonomeia a semente dessa ‘nova política’ (a limpa), acabou na verdade reiterando a falsa disjuntiva.

Aécio trocou a dualidade higiênica de Malafaia e assemelhados pelo maniqueísmo da 'boa e a má política'.

Boa política para o candidato do PSDB era a política de Tancredo ...Naturalmente não a de Vargas, não a de Morales, não a de Chávez, não a de Lula.

A ideia de uma salubridade externa à história que deve ser tomada como referência limpa e boa na construção da sociedade é um daqueles mantras aos quais se agarram os interesses dominantes de todos os tempos.

Pode assumir a forma de uma religião (leia o indispensável artigo de Katarina Peixoto; nesta pág). Ou a da judicialização da ‘velha e má’ política. Ou ainda encarnar no monopólio de um dispositivo midiático que se avoca a prerrogativa de um Bonaparte, a emitir interditos e sanções em defesa dos interesses que nomeia como ‘a ordem’.

O mercadismo rentista, o fanatismo religioso, assim como o barbosismo togado ou o bonnerismo midiático sempre tiveram dificuldade em se expressar através de um palanque unitário que emprestasse carisma a um credo excludente em seus próprios termos.

Agora parece que não mais, graças à ascensão desse super-bonder chamado 'nova política'.

Trata-se de um retrofit da desgastada terceira via.

Retro, do latim “movimentar-se para trás” e fit do inglês, adaptação, ajuste.

O termo emprestado da arquitetura adequa-se à descrição da candidatura sensação nesse momento que os mais entusiasmados, a partir de dados do Datafolha, enxergam em escalada irreversível rumo a Brasília.

O retrofit é recomendável quando um edifício chega ao fim de sua vida útil, oferecendo-se como opção para corrigir o desgaste e a decadência do longo tempo de uso, todavia sem alterar seus alicerces e estruturas de sustentação.

É mais barato e funcional.

No caso da política, o retrofit consiste em vender como novo a velho ardil conservador que evoca uma ordem natural naquilo que cabe ao conflito democrático resolver: ou seja, as escolhas inerentes à luta pelo desenvolvimento da economia e da sociedade.

Objetivamente, a candidatura Marina Silva é um retrofit do neoliberalismo e da terceira via.

Não qualquer retrofit , mas o estuário do higienismo político diuturnamente inoculado no imaginário brasileiro pelo intercurso de mídia, togas e elites nos últimos anos.

O desafio de vida ou morte do campo progressista nesse momento é restaurar a transparência dos dois campos em confronto na sociedade brasileira, dissimulados sob o xale da ‘nova política’.

O calcanhar de aquiles do retrofit conservador é o antagonismo entre a maquiagem da fachada e de alguns equipamentos e a rigidez dos pilares e colunas estruturais.

Num edifício isso é contornável com algum jogo de decoração.

Numa sociedade pode ser insuportável.

A participação soberana e democrática da população nas decisões sobre o desenvolvimento frequentemente evoca mudanças que colidem com as velhas estruturas que a ‘nova política’ visa preservar.

Marina Silva afirma apoiar o decreto de Dilma, demonizado pela elite que a festeja, da Política Nacional de Participação Social.

Como, porém, se a mesma Marina defende, por exemplo, a independência sagrada do Banco Central em relação à democracia e ao governo?

Como, se terceiriza aos operadores do mercado a hegemonia plena sobre a fixação de um dos principais preços da economia: a taxa de juros? (Leia esclarecedor artigo de Paulo Kliass sobre esse tema; nesta pág).

Marina e seus formuladores defendem a mesma autonomia em relação a outro preço estratégico: o câmbio, que segundo eles, deve flutuar livremente. E abjuram, em relação ao salários (o terceiro preço decisivo no capitalismo) , a política de valorização do salário mínimo adotada pelos governos petistas –da qual Dilma avisa que não abdicará.

É justo perguntar: assim encapsulada a economia nas mãos do mercado, o que sobra então à participação social endossada por Marina Silva?

O Brasil, desde 2003 –com todas as limitações e contradições intrínsecas a um governo de base heterogênea-- tem figurado aos olhos do mundo como uma da estacas de resistência à retroescavadeira ortodoxa que demole e tritura direitos sociais e soberania econômica urbi et orbi.

Essa resistência criou um dos maiores mercados de massa do mundo numa demografia de 202 milhões de habitantes.

Não há dúvida de que isso se fez às custas de afrontar a lógica de uma globalização financeira cujo colapso apenas acentuou sua natureza intrinsicamente excludente.

O assoalho macroeconômico brasileiro range e ruge sob o peso da inadequação entre a emergência desse protagonista de massa, que constitui a nova força motriz da economia, e estruturas pensadas para atender a 1/3 da população mais rica.

A solução da ‘nova política’ é reconduzir a agenda do desenvolvimento aos fundamentos estritos de sua autorregulação pelas forças dos mercados globais.

Higienizar ‘a sujeira’ do intervencionismo em todas as frentes.

Com as consequências sociais sabidas. E a dose de repressão necessária que faz do endosso de Marina à participação social pouco mais que um retrofit na palavra simulacro.

Não é uma acusação eleitoreira; é uma operação em marcha promovido por massas de forças ferozes.

Curto e grosso: está em jogo colocar o Estado esfericamente na mira dos jagunços de gravata de seda italiana e Rolex, dos quais Neca do Itaú é só a face elegante, para que façam o serviço sangrento.

Sobrepor o interesse privado aos da sociedade implica capturar o sistema democrático integralmente para o mesmo fim.

É uma operação de potencial lucrativo tão elevado que ao mercado compensa tolerar o xale dissipador de Marina Silva –desde que o bangue-bangue da faxina econômica esteja liberado às mãos e bicos que dão conta do serviço.

Não é só uma sucessão presidencial, portanto.

Estamos diante de um divisor histórico do desenvolvimento brasileiro.

Ao aluvião de malafaias, rentistas e bem intencionados --seduzidos estes pelo glamour da ‘nova política’, não basta contrapor o exaustivo balancete publicitário do que se conquistou nestes últimos 12 anos.

É importante, mas não é suficiente.

É forçoso contrapor à ‘nova política’ aquilo que a desnuda e afronta.

É urgente dizer pelo que se luta e contra quem se trava a batalha dos próximos dias e noites.

Essa é uma batalha entre a democracia social e as forças regressivas do galeão malafaico-rentista.

É preciso escancarar a contradição entre o retrofit messiânico e as estruturas calcificadas que ele maquia.

Contrapor , enfim, ao galope conservador um salto efetivo da democracia participativa em um novo governo Dilma.

Tornar esse salto palpável aos olhos da população requer um símbolo de magnetismo equivalente às tarefas que essa agenda encerra em termos de negociação de pactos, metas, concessões, salvaguardas e organização.

Um novo governo estruturado em torno dessa renegociação do desenvolvimento requer um chefe de Casa Civil dotado ao mesmo tempo de inexcedível sintonia com a Presidenta Dilma , e de incontrastável representatividade popular.

Essa referência existe; já funciona de fato como líder político do campo progressista; deveria ser oficializado desde já na nova estrutura de um segundo governo Dilma.

Seu nome é Lula.